Grupo de Trabalho Interministerial Reúne Especialistas
Nesta sexta-feira (01), o Ministério da Cultura (MinC) promoveu a 7ª reunião do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) sobre games, dentro da programação da gamescom latam 2026, em São Paulo. O evento contou com a presença de representantes de diversos órgãos governamentais e especialistas do setor para discutir referências internacionais e traçar caminhos para a regulamentação do mercado de games no Brasil.
À frente da agenda, Milena Evangelista, diretora de Formação e Inovação Audiovisual da Secretaria do Audiovisual do MinC, ressaltou a importância estratégica e a colaboração entre diferentes ministérios, incluindo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), Ministério da Justiça, Ministério do Trabalho, Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). “O objetivo do grupo é consolidar um relatório que guiará a regulamentação do marco legal dos jogos digitais no Brasil, refletindo a complexidade do setor”, afirmou.
De acordo com Evangelista, a realização do encontro durante a gamescom é fundamental para fortalecer o diálogo com o mercado e especialistas internacionais. “Estamos muito felizes em realizar essa reunião aqui, conectando o governo federal às discussões globais sobre jogos”, completou.
Inovações e Modelos de Fomento Internacional
A primeira mesa do encontro contou com a presença de especialistas internacionais que atuam na formulação de políticas públicas para a indústria de games. Participaram Kristian Roberts, CEO da Nordicity, do Canadá; Jason Della Rocca, consultor de negócios e investidor da indústria de games, também canadense; e Thierry Baujard, cofundador da Spielfabrique, da Alemanha, que atua em programas de aceleração na Europa.
No evento, Kristian Roberts destacou os principais modelos de apoio à indústria globalmente, que incluem incentivos fiscais e financiamento público direto. Ele enfatizou que as transformações no setor, como a formação de equipes menores e o alcance global ampliado, demandam novas abordagens de políticas públicas. “Os programas de financiamento direto são cruciais para acelerar a produção de jogos, fortalecer a relevância cultural e gerar receitas internacionais”, explicou.
Jason Della Rocca abordou a questão da soberania da propriedade intelectual (IP) como um eixo estratégico para o desenvolvimento da indústria brasileira. “Controlar suas próprias histórias e criações é mais importante do que nunca. A propriedade intelectual é um ativo essencial para gerar valor econômico e reconhecimento global”, afirmou.
Por sua vez, Thierry Baujard apresentou experiências da Europa relacionadas à cooperação entre estúdios e diversificação das estratégias de financiamento. Ele destacou a crescente tendência de coproduções internacionais e iniciativas que integram games com outras linguagens criativas, como cinema, música e literatura. “O objetivo é fortalecer os estúdios para que não dependam apenas de publishers, criando estratégias mais equilibradas e sustentáveis”, contou.
Acessibilidade e Equidade no Setor de Games
A segunda parte da reunião abordou temas cruciais sobre equidade, acessibilidade e territorialização na indústria de games no Brasil, elementos considerados centrais para a formulação de políticas públicas. A desenvolvedora de jogos e presidente da Associação de Desenvolvedores de Jogos da Bahia (BIND), Lobba Mattos, apresentou um diagnóstico contundente das desigualdades existentes no ecossistema, especialmente em estados fora do eixo Rio-São Paulo.
Com base em sua experiência na Bahia, Lobba evidenciou gargalos na formação, no acesso ao financiamento e na distribuição. “Apenas 17% das empresas têm mulheres em posições de liderança, e a presença de pessoas negras e com deficiência é mínima, mesmo em uma região tão diversa”, destacou. Ela também enfatizou que o desenvolvimento de jogos no Brasil está intimamente ligado ao acesso à infraestrutura tecnológica e à organização territorial. “Não existe política de games sem uma política urbana”, afirmou, referindo-se à importância do acesso à internet e a condições adequadas para a permanência no setor.
Fabrício Ferreira, criador de conteúdo e fundador da ONG AbleGamers Brasil, ressaltou a importância dos jogos como ferramenta de inclusão social, especialmente para pessoas com deficiência. “Nos games não existem barreiras; é onde as pessoas se conectam além de rótulos”, afirmou. Ferreira também criticou a visão limitada que ainda recai sobre os videogames como produtos exclusivamente infantis. “Reduzir os games a isso ignora seu impacto, especialmente para aqueles que encontram pertencimento e interação social através deles”, completou.
O especialista em acessibilidade em games, Christian Rivolta Bernauer, destacou o impacto positivo que o acesso a jogos adaptados pode ter na qualidade de vida de pessoas com deficiência. Ele argumentou que a inclusão deve ir além do simples acesso aos jogos, abrangendo convivência, autoestima e participação social. “Estamos falando de inclusão real”, pontuou.
Diretrizes para o Futuro da Indústria de Games no Brasil
Por fim, os participantes do GTI concordaram que o desenvolvimento da indústria de games no Brasil requer uma abordagem integrada, que una a promoção da produção, o fortalecimento da propriedade intelectual, além de ações focadas na inclusão e redução das desigualdades territoriais. O Grupo de Trabalho Interministerial segue com seus trabalhos nos próximos meses, com a previsão de realizar mais 12 encontros até o final de 2026 e a elaboração de um relatório com diretrizes para a regulamentação e fortalecimento da indústria nacional de jogos digitais.
