Desafios do Agronegócio no Controle de Emissões
O Governo Federal finalmente divulgou os compromissos estabelecidos para a redução das emissões de gases de efeito estufa, um passo positivo, mas que peca pela falta de maior ambição. Atualmente, cerca de 70% das emissões brasileiras são oriundas do setor agropecuário, que historicamente resiste a implementar metas mais rigorosas.
Desde o início do governo, as reuniões entre os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente têm sido um campo de batalha sobre qual rumo deve ser tomado para enfrentar a crise climática. Apesar de ser uma das áreas mais vulneráveis a desastres climáticos, uma parte significativa do agronegócio se opõe à sua parcela de responsabilidade na redução das emissões, como fica evidente nas diretrizes do novo Plano Clima.
O governo finalmente apresentou a versão completa das metas definidas para cumprir os compromissos do Acordo de Paris, após meses de negociações — em fevereiro, apenas uma prévia havia sido divulgada. O objetivo é uma redução das emissões nacionais de carbono entre 59% e 67% até 2035, com 2005 como ano-base, o que representa um esforço considerável. Contudo, com base nas estimativas mais recentes, o Brasil precisa diminuir suas emissões em 49% a 58% em relação a 2022, um desafio monumental considerando que o agronegócio é responsável pela maioria das emissões.
Desmatamento e Metas Ambiciosas
O agronegócio, principalmente devido ao desmatamento para pastagem de gado e cultivo agrícola, continua a ser a maior fonte de poluição climática no país. Embora tenha havido progresso nos últimos anos — graças à gestão de Marina Silva, que viu uma queda nos índices de desmatamento —, a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030 parece uma tarefa quase impossível em apenas cinco anos. Isso só se tornará viável se as diferentes áreas do governo colaborarem de forma eficaz, ao invés de agirem de maneira conflituosa.
Uma mudança significativa no Plano Clima é a dissociação entre o desmatamento em áreas públicas e privadas, além de uma abordagem diferenciada para a redução das emissões na agropecuária, incluindo fatores como o uso de fertilizantes e a fermentação entérica dos ruminantes. Essa divisão da responsabilidade entre os ministérios do Meio Ambiente, Agricultura e Desenvolvimento Agrário pode acabar complicando a implementação das medidas necessárias.
Responsabilidades e Expectativas
A maior parte da carga recai sobre o Ministério do Meio Ambiente, que terá que reduzir as emissões em mais de 150% até 2035. Isso inclui não apenas a eliminação total das emissões, mas também a necessidade de compensar por meio da captura de carbono, incentivando o crescimento da vegetação. Além disso, o ministério deve monitorar as derrubadas em terras da União e promover a regeneração de áreas desmatadas.
No que diz respeito às propriedades privadas, a redução das emissões será mais modesta, com uma expectativa de diminuição de 110%. Para a produção agropecuária, as metas variam entre uma redução de 7% e um aumento de 2%, o que demonstra uma falta de clareza sobre a direção que o setor deve tomar.
Setor de Energia e Lobby Político
É preocupante notar que, no setor de energia, as emissões podem aumentar entre 1% e 44%, um indício de que lobbies poderosos estão influenciando decisões, especialmente em relação à exploração de carvão mineral e à queima de combustíveis fósseis em termelétricas. Essa situação revela não apenas uma falta de ambição nas metas, mas também a complexidade política que envolve a criação de políticas climáticas eficazes.
A luta por um futuro mais sustentável deve passar pela colaboração entre diferentes setores e pela vontade política de enfrentar as pressões e resistências que ainda permeiam o agronegócio. Somente assim será possível avançar em direção a um Brasil mais verde, que respeite tanto o meio ambiente quanto as necessidades do crescimento econômico.
