Explorando Novas Oportunidades no Agronegócio
O agricultor Amauri Weber, de 63 anos, administra 700 hectares nas cidades de Palotina e Terra Roxa, no Oeste do Paraná, e tem se destacado pela diversificação na produção agrícola. Ele utiliza técnicas de rotação de culturas e manejo moderno, o que lhe permitiu colher 83,5 sacas por hectare de soja na última safra. Essa produtividade é considerada excelente e os grãos foram entregues à cooperativa C. Vale, da qual é associado. Embora a cooperativa direcione a maior parte dos grãos para suas fábricas de ração, o resultado do trabalho gerou, apenas no ano passado, 199,3 mil toneladas de óleo degomado, que serve como matéria-prima para a produção de biodiesel.
“Gerar energia renovável, além de alimentos, nos deixa satisfeitos”, resume Weber, refletindo a nova realidade do agronegócio brasileiro.
Grande parte desse óleo é comercializada pelo Grupo Potencial, que, anualmente, produz em sua fábrica na Lapa, Região Metropolitana de Curitiba, cerca de 1 bilhão de litros de biodiesel. Recentemente, a empresa anunciou um investimento de R$ 6 bilhões até 2030, com o objetivo de transformar a unidade em um complexo de agroenergia que também incluirá etanol e biogás. A soja, por exemplo, promete contribuir com 1,7 bilhão de litros de biodiesel e 500 milhões de litros de óleo degomado a cada ano.
“Nada pode superar o protagonismo da soja na produção de biodiesel”, afirma César de Castro, pesquisador da Embrapa Soja.
A Importância da Soja e Perspectivas Futuras
Em 2025, a soja foi responsável por 73,3% dos 9,8 bilhões de litros de biodiesel produzidos no Brasil, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Castro explica que a mecanização da cultura, sua ampla utilização na ração animal e mais de 50 anos de pesquisa e desenvolvimento garantem sua posição de destaque no setor.
“A soja gera farelo, e o óleo é um bônus”, complementa o pesquisador, indicando que a utilização de subprodutos é uma estratégia importante para maximizar a produção.
Segundo Fernando Moura, diretor da ANP, a capacidade produtiva autorizada para biodiesel deve crescer 36%, totalizando 15,5 milhões de metros cúbicos por ano, o que demonstra o potencial de expansão desse mercado.
Novas Culturas em Ascensão
Entretanto, a predominância da soja não significa que outras culturas estejam sendo negligenciadas. Bruno Laviola, chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, destaca que a canola é uma opção viável para a segunda safra, enquanto a macaúba, uma palmeira nativa do Brasil, pode se mostrar útil, especialmente em áreas de difícil mecanização.
O grão de canola possui entre 38% e 42% de óleo, comparado a 18% a 22% na soja. Já a macaúba chega a impressionantes 60% de óleo, conforme pesquisas da Embrapa.
“A soja ocupou 48,4 milhões de hectares na última safra e oferece uma abundância de matéria-prima para o biodiesel. No entanto, ter opções é essencial”, avalia Laviola.
Atualmente, a pecuária representa a segunda maior fonte de biodiesel, com 8,3% de participação. Em 2025, as gorduras bovina e suína devem gerar 827,5 milhões de litros do combustível, oferecendo uma alternativa com custos competitivos, menor pegada de carbono e um significativo potencial de crescimento.
Progresso no Etanol: Uma História de Sucesso
Se o biodiesel começou a ser produzido em larga escala no Brasil há cerca de 20 anos, o etanol já é parte da história agrícola brasileira há mais de meio século. Nos últimos dez anos, a produção de etanol cresceu 20%, alcançando quase 36 milhões de metros cúbicos em 2025, segundo a ANP. Além disso, há 45 projetos em andamento para a ampliação ou a construção de novas indústrias de etanol, com previsão de operação em 2026. Esses projetos devem aumentar em 12% a capacidade produtiva do etanol anidro e em 7,8% a do hidratado.
A cana-de-açúcar sempre foi a principal cultura na produção de etanol, mas os investimentos na produção a partir do milho têm se multiplicado, e este cereal já representou quase 30% de toda a produção de etanol em 2025. A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) indica que existem 27 biorrefinarias que convertem milho em combustível, além de 16 com autorizações de construção vigentes.
Complementaridade e Oportunidades no Centro-Oeste
Para Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), a cana e o milho devem coexistir de forma complementar, especialmente na região Centro-Oeste, onde a produção de milho é mais intensa.
“É vital que haja uma isonomia regulatória e concorrencial entre as diferentes rotas de produção. Não podemos favorecer um tipo de etanol em detrimento de outro”, ressalta.
Lucas Costa Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT) e produtor em Nova Mutum, vê a industrialização do milho para etanol como um caminho sem volta. “Ela gera uma proteína de alta qualidade, e o combustível agrega valor ao grão. A cada tonelada do cereal colhida, arrecadamos R$ 300 em impostos”, comenta.
Atualmente, muitos agricultores negociam suas produções diretamente com as indústrias, que buscam garantir estoques do cereal. Lucas Beber vende sua produção para a Inpasa, uma empresa paraguaia com atuação no Brasil desde 2018, que possui sete indústrias, incluindo uma em Sinop, que produz 1 bilhão de litros de etanol a cada ano. A Inpasa também começa a utilizar o sorgo granífero, que responde por 5% de toda a produção de etanol proveniente de suas indústrias na Bahia e no Mato Grosso do Sul, devido à sua resistência a condições climáticas adversas e adaptação a solos arenosos. Uma tonelada de sorgo pode gerar até 410 litros de etanol, próximos aos 440 litros que o milho pode oferecer.
