Desdobramentos do Conflito no Irã e Suas Consequências para o Agronegócio
O advogado Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados, destaca a importância de observar as implicações do atual conflito no Irã. Segundo ele, “Os contratos não são suspensos automaticamente devido a força maior, pois os exportadores brasileiros podem considerar rotas alternativas, como as do Mediterrâneo, que, embora viáveis, são geralmente mais caras e complexas”.
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) está monitorando a situação de perto, embora até o momento não tenha recebido informações concretas sobre impactos nas operações das empresas associadas.
Por outro lado, a guerra no Oriente Médio pode trazer efeitos inesperados para o mercado de etanol, conforme aponta um relatório da XP. De acordo com os analistas, a escalada dos preços do petróleo nas bolsas de Londres e Nova York, onde os contratos do Brent e do WTI registraram uma alta superior a 2%, pode beneficiar o biocombustível. Com o barril ultrapassando a marca de US$ 70, a competitividade do etanol em relação aos combustíveis fósseis tende a melhorar.
Consequências para a Indústria de Fertilizantes
O impacto do Irã no fornecimento de gás natural, crucial para a produção de fertilizantes, é uma preocupação crescente. Maísa Romanello, analista de mercado da Safras&Mercado, aponta que o Irã se posiciona como o principal fornecedor deste insumo para países como Catar, Omã e Nigéria, que, por sua vez, exportam fertilizantes nitrogenados para o Brasil. “Uma interrupção no fluxo de gás pode resultar em uma diminuição na oferta de matéria-prima, prejudicando a produção de ureia”, alerta Romanello.
Recentemente, os preços da ureia no Egito já chegaram a quase US$ 540 por tonelada, um aumento superior a 10% em relação aos preços da semana anterior, que estavam abaixo de US$ 490 por tonelada, conforme revelado pela consultoria StoneX.
Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, sublinha que o Oriente Médio concentra aproximadamente 40% das exportações globais de ureia e 28% das de amônia. “Após o início do conflito, muitos fornecedores de ureia da região suspenderam suas ofertas, buscando maior clareza sobre os preços futuros antes de retomar as vendas”, afirmou.
Reestruturação nas Rotas de Exportação
Os exportadores brasileiros estão reavaliando as rotas de envio para o Oriente Médio. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), mencionou que transportes que antes utilizavam as rotas do Canal de Ormuz e do Suez estão sendo redirecionados para passar pelo Cabo da Boa Esperança, na África. “Estamos prevendo um aumento nos custos e atrasos nas entregas”, comentou Santin. Além disso, rotas alternativas via Turquia e portos como Salalah, em Omã, também estão em análise.
Atualmente, o Brasil exporta cerca de 200 mil contêineres anualmente, com 25% desse total destinados ao Oriente Médio. A MBRF, que opera na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes, afirmou que suas operações permanecem inalteradas, priorizando a segurança de seus colaboradores. Já a JBS optou por não fazer comentários sobre a situação.
Impactos no Setor de Frutas e a Crise Logística
Waldyr Promicia, vice-presidente da Abrafrutas, afirmou que algumas empresas de frete marítimo já interromperam o envio de navios para o Golfo Pérsico, o que pode afetar as exportações. “É certo que teremos que suspender essas operações temporariamente, o que levará a uma sobrecarga nos mercados alternativos”, lamentou Promicia.
A preocupação com a disponibilidade de contêineres também é evidente, lembrando a crise logística enfrentada durante a pandemia de Covid-19.
Dependência do Milho e Fertilizantes Importados
O Irã se destacou em 2025 como o maior importador de milho brasileiro, com 9 milhões de toneladas, correspondendo a 23% do total das exportações brasileiras. No entanto, a associação de produtores de milho, Abramilho, expressa receios relacionados aos fertilizantes, especialmente a ureia, que é essencial para a cultura do milho. Segundo Glauber Silveira, diretor executivo da Abramilho, a dependência do Brasil de fertilizantes importados torna a situação ainda mais crítica, destacando que os preços elevados e a demanda internacional complicam o cenário.
Nos próximos dias, a Alphamar Agência Marítima tem dez navios programados para carregar cerca de 660 mil toneladas de soja e farelo com destino ao Irã. Contudo, a incerteza sobre a segurança das rotas em decorrência dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã pode impactar esses embarques, conforme salientou Arthur Neto, sócio diretor da empresa. “Estamos em um cenário de grandes incertezas sobre o que ocorrerá com esses navios”, concluiu Neto.
