O Impacto do Acordo nas Exportações do Agronegócio
O recente acordo comercial entre o Brasil e a União Europeia voltou a ser tema central nas discussões econômicas. O foco agora é sobre o acesso a mercados, exigências ambientais e, especialmente, o papel do valor agregado nas exportações do agronegócio. Embora o modelo de cotas estabelecido limite os volumes exportados, analistas afirmam que o principal efeito do acordo não está no montante exportado, mas na qualidade do acesso ao mercado europeu.
A União Europeia, ao longo dos anos, tem se mostrado um dos principais destinos para os produtos agroindustriais brasileiros que possuem maior valor agregado. Isso se aplica, especialmente, aos itens que atendem a elevados padrões de rastreabilidade, sustentabilidade e segurança sanitária, conforme relato dos dados do comércio exterior brasileiro disponibilizados pelo governo federal. Nesse aspecto, acordos comerciais tendem a funcionar não apenas como instrumentos para o aumento volumétrico, mas como mecanismos de qualificação para o fluxo de exportações.
Qualidade em Foco
Na visão do zootecnista e consultor financeiro Fabiano Tavares, a estrutura do acordo reflete essa lógica. “As cotas não são desenhadas para grandes volumes, mas sim para produtos que atendem a critérios rigorosos. Quando essas exigências são cumpridas, o preço médio recebido tende a ser superior ao de mercados menos exigentes”, declara Tavares.
No setor da carne bovina, Tavares observa que os benefícios são mais evidentes na qualidade do produto exportado. “A União Europeia valoriza características como cortes nobres, bem-estar animal e uma menor pegada de carbono. Embora poucos produtores consigam acessar esse mercado, aqueles que atendem aos critérios operam com preços por quilo que superam a média destinada a outros mercados”, explica. Além disso, ele ressalta que existe um efeito indireto de valorização dos animais que atendem aos padrões exigidos pela Europa dentro do mercado interno.
Setores com Impacto Diferenciado
Nos segmentos de aves e suínos, o impacto do acordo é mais operacional. “Essas cadeias são altamente padronizadas, com rigoroso controle sanitário e rastreabilidade. As cotas servem como um instrumento para previsibilidade de fluxo, margem e ocupação industrial, mais do que como um alavanca de volume”, comenta Tavares.
Em relação à soja, o impacto se transfere para a indústria. “O ganho está menos no grão e mais nos derivados, como farelo e óleo, que enfrentam menor resistência regulatória e, consequentemente, permitem uma maior agregação de valor. O acordo não altera o preço do grão no Brasil, mas influencia o destino e a margem da indústria de processamento”, afirma o especialista.
Previsibilidade e Oportunidades
O milho, por sua vez, desponta como um fornecedor complementar em um contexto europeu que é estruturalmente deficitário. “O impacto maior está em trazer previsibilidade para a cadeia de ração e proteína animal, especialmente para confinamentos, aves e suínos”, destaca Tavares.
No âmbito do açúcar, mesmo cotas reduzidas podem trazer efeitos significativos. “A redução tarifária provoca reações rápidas no mercado e pode não apenas melhorar o mix exportador, mas também elevar o preço médio, sem a necessidade de um aumento expressivo de volume”, observa o consultor.
No que diz respeito ao etanol, a questão ambiental é um diferencial. “A Europa não compra apenas combustível, mas também carbono evitado. O etanol de cana-de-açúcar se destaca nesse aspecto, e as cotas ajudam a estabelecer contratos mais previsíveis”, avalia Tavares.
Outros Setores Beneficiados
Produtos como café, celulose, papel, madeira processada e alimentos industrializados também têm potencial para se beneficiar. “Esses itens estão menos sujeitos a contendas políticas e são mais orientados à qualidade e ao valor agregado, o que diminui o impacto das cotas sobre o acesso ao mercado europeu”, conclui o especialista.
