Feminismo Urgente: Um Chamado à Ação
Nesta semana, as cidades de Natal e Mossoró foram palco do seminário “Feminismo Urgente”, que reuniu acadêmicos, parlamentares, estudantes e ativistas para discutir o enfrentamento à violência contra mulheres, a misoginia presentes nas redes sociais e a responsabilidade das plataformas digitais nesse contexto. O evento contou com a presença de renomadas sociólogas, como Bruna Camilo, reconhecida nacionalmente por suas pesquisas sobre grupos chamados de “red pills”, e Tica Moreno, integrante da coordenação nacional da Marcha Mundial das Mulheres e da Sempreviva Organização Feminista.
Em Natal, os debates aconteceram no auditório do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), enquanto que em Mossoró, o encontro se deu no auditório da FAFIC, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Segundo a organização do evento, mais de 300 pessoas participaram das discussões nas duas cidades.
Durante o seminário, Bruna Camilo destacou que o combate à misoginia vai muito além da aplicação de medidas punitivas. “Estamos focando muito na criminalização da misoginia, mas apenas prender não resolve o problema. Se a prisão fosse a solução, não estaríamos na situação atual. Criminalizar a misoginia deve envolver educação e a responsabilização das big techs. Precisamos de suspensão de contas, multas e outras punições severas, pois são essas empresas que estão invadindo nossos lares”, afirmou.
A socióloga também chamou a atenção para a relação entre o crescimento de conteúdos misóginos e a atuação das plataformas digitais. “A questão não está na internet per si, mas sim em quem a controla. Por que empresas como Meta e YouTube permitem a disseminação desses conteúdos? É importante entender que esses conteúdos de ódio são fomentados porque geram engajamento e lucro para as plataformas”, disse.
O debate ocorre no contexto de um alarmante aumento de feminicídios no Brasil. Dados recentes do Ministério da Justiça e Segurança Pública indicam um crescimento de 7,5% nas vítimas entre janeiro e março de 2026, em comparação ao mesmo período do ano anterior. No total, foram registrados 399 casos de feminicídio em todo o país, sendo 10 deles somente no Rio Grande do Norte.
A Importância das Políticas Públicas e da Representatividade
Tica Moreno enfatizou que fortalecer as políticas públicas e garantir maior representatividade feminina nos espaços de poder são passos fundamentais no combate à violência de gênero. “Quando o feminismo começou, não tínhamos direitos básicos, como o de trabalhar, votar ou acessar educação. Conseguimos nossos direitos porque nos organizamos e lutamos por eles”, disse.
Ela também conectou a luta contra a misoginia com a defesa da democracia e o combate aos discursos de ódio nas redes sociais. “A luta das mulheres contra a misoginia na internet é parte da disputa pela democracia no Brasil, especialmente contra o avanço da extrema direita”, argumentou.
A vereadora de Natal, Brisa Bracchi, compartilhou suas experiências de ataques sofridos durante o mandato e ressaltou a necessidade de ampliar a discussão sobre a violência digital. “Como feminista, desejo que a internet não seja um espaço sombrio e abandonado pelo Estado, mas sim um local onde possamos construir alternativas que afastem as estatísticas de violência do passado”, declarou.
A deputada estadual Isolda Dantas também observou que, nos últimos anos, discursos misóginos ganharam visibilidade. “Tivemos um presidente que declarou que éramos ‘fraquejadas’ e afirmou que mulheres devem ser submissas. Esses discursos de ódio estão se tornando cada vez mais comuns”, apontou.
Por sua vez, a vereadora de Mossoró, Plúvia Oliveira, pediu que o debate sobre feminismo inclua também a questão racial. “Perguntei à Bruna: ‘Como esses grupos se comportam em relação às mulheres?’ E ela respondeu: ‘Elas não são tratadas como pessoas’. O racismo cruza essa questão e precisamos entrelaçar essas discussões”, afirmou.
O seminário “Feminismo Urgente” foi organizado por diversas entidades, incluindo Corpopolítica/UFRN, Marcha Mundial das Mulheres, DIAAD/UERN, Faculdade de Serviço Social, PROEC/UFERSA, Centro Feminista 8 de Março e os mandatos da deputada Isolda Dantas e das vereadoras Brisa Bracchi e Plúvia Oliveira.
