Aumento de Pedidos de Recuperação Judicial
O número de solicitações de recuperação judicial dentro do agronegócio deve continuar elevado até 2026, impulsionado pela pressão crescente de credores e pela atuação de escritórios especializados em processos desse tipo. De acordo com informações da TerraMagna, existe uma ‘oferta ativa’ de recuperações judiciais, com advogados promovendo essa alternativa como solução para o endividamento agrícola. Simultaneamente, instituições financeiras, indústrias e investidores do mercado de capitais têm intensificado a cobrança por dívidas em aberto.
No entanto, já se observa um crescente descontentamento entre os produtores rurais que optaram por essa alternativa há uma ou duas safras. Segundo David Telio, especialista no setor, muitos acreditavam que a recuperação judicial seria a solução definitiva para suas dívidas, mas, na realidade, acabaram perdendo o acesso ao crédito. Ele destaca: ‘Muitos estão se arrependendo e percebendo que essa solução tem vida curta. Mesmo que consigam reduzir uma parte da dívida e preservar seu patrimônio, acabam deixando de plantar.’
Frustração Entre Produtores Rurais
Com a falta de alternativas, produtores que recentemente solicitaram recuperação judicial têm buscado arrendar terras como uma forma de garantir alguma renda. Telio aponta que, apesar do elevado número de pedidos neste ano, a tendência é que essa situação comece a diminuir a partir de 2027, à medida que mais pessoas reconhecem que esse caminho pode não valer a pena.
O Que Esperar do Futuro?
Para Octaciano Neto, fundador da Zera.ag, o atual cenário do agronegócio não deve ser visto como uma crise estrutural, mas sim como uma fase de margens mais apertadas em certas culturas, principalmente na soja e no milho. Ele comenta: ‘Costumo dizer que o produtor quebra no ano bom, não no ano ruim. Com a soja alcançando preços recordes em 2022 e 2023, muitos produtores fizeram escolhas erradas, e com o aumento dos juros, a situação se complicou para os mais alavancados.’
Neto sugere que a melhor estratégia para os produtores endividados seria desmobilizar ativos, embora admita que a recuperação judicial possa parecer a solução mais simples a curto prazo. ‘Entretanto, isso deixa uma marca permanente no longo prazo’, alerta.
A Utilização do Mecanismo de Recuperação Judicial
O especialista ainda menciona que a recuperação judicial no agronegócio é um instrumento relativamente novo, que ganhou destaque a partir de 2021, e carece de uma base histórica sólida para avaliar seus impactos. Segundo ele, existem dois tipos de utilização desse mecanismo: produtores que realmente enfrentam dificuldades financeiras e recorrem à recuperação judicial como uma saída legítima, e aqueles que, incentivados por terceiros, usam esse recurso inadequadamente.
‘Alguns acreditavam que a recuperação judicial resolveria todos os seus problemas, mas na verdade, não é essa a solução’, conclui Neto, que acredita que o número elevado de pedidos deve persistir ainda este ano, mas torce para que o pico já tenha sido alcançado em 2025.
O Fenômeno das Recuperações Judiciais no Brasil
Embora o aumento recente no número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio seja notável, Neto observa que, do ponto de vista estatístico, essa realidade ainda é limitada no contexto do agronegócio brasileiro. Ele ressalta que, considerando os aproximadamente 5 milhões de produtores no Brasil, apenas 1,1 milhão deles acessam crédito, e cerca de 400 mil são responsáveis por 85% do Valor Bruto da Produção. Dessa forma, o número de recuperações judiciais é, estatisticamente, ainda pouco relevante.
