Desafios na Saúde da Amazônia Legal
A incidência do tabagismo nas comunidades tradicionais da Amazônia Legal é alarmante, com cerca de 12% dos habitantes dessas áreas se considerando fumantes, enquanto o índice entre a população geral da região é significativamente menor, apenas 6%. Essa realidade é revelada pela pesquisa “Mais Dados, Mais Saúde”, conduzida por Vital Strategies e Umane, com a colaboração do instituto Devive. O estudo foi realizado entre maio e julho de 2023 e abrangeu uma amostra de 4.037 pessoas em todos os estados que constituem a Amazônia Legal.
As comunidades tradicionais incluem indígenas, seringueiros, quilombolas, ribeirinhos e extrativistas, que somam aproximadamente 867.919 indígenas e 427.801 quilombolas, de acordo com o Censo do IBGE. A Amazônia Legal é composta por nove estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e parte do Maranhão, totalizando 26,7 milhões de habitantes.
Consumo de Álcool e Tabagismo: Um Problema Persistente
Além do tabagismo, a pesquisa revelou que 12,3% da população local consome álcool regularmente, ou seja, três ou mais vezes por semana, um número que ultrapassa em muito a média nacional de cerca de 3%, conforme dados do Datafolha. O tabagismo e o uso de álcool têm sido questões antigas que afetam estas comunidades. O consumo de álcool e tabaco foi tratado em conferências já nos anos 2000, como a 1ª Conferência Internacional sobre Consumo de Álcool e Redução de Danos, realizada em Recife.
Em 2025, o podcast “Dois Mundos”, da Folha de S.Paulo, destacou que esses problemas ainda persistem em diversas etnias da Amazônia. Luciana Vasconcelos, diretora-adjunta de Doenças Crônicas da Vital Strategies, aponta a falta de informação sobre saúde como um dos principais obstáculos à diminuição do tabagismo nessas populações. Para ela, a distância das comunidades dos serviços de saúde resulta em um desconhecimento sobre os riscos associados ao tabagismo.
Fatores Culturais e Acesso à Saúde
“Historicamente, a ausência de ações de comunicação sobre os riscos à saúde está relacionada a índices elevados de tabagismo. Quando o usuário não tem acesso ao sistema de saúde, ele não sabe os impactos que certos hábitos podem trazer”, enfatiza Luciana. A falta de acesso à saúde é um fator que compromete a assistência necessária para reduzir o uso de tabaco entre essas populações.
Entretanto, a questão não se restringe apenas à falta de informação. Gabriel Cortês, especialista técnico da Vital Strategies, destaca que os hábitos culturais também desempenham um papel relevante. O tabaco, por exemplo, é frequentemente utilizado em rituais e está ligado ao cotidiano de trabalho dessas comunidades. “É comum ver a imagem do seringueiro ou do pescador com um cigarro na boca”, aponta Cortês.
Dados Reveladores sobre Tabagismo na Região
A pesquisa revelou ainda que a prevalência do tabagismo é mais acentuada entre os homens da Amazônia Legal, com 12,8%, contra 4,6% entre as mulheres. Esses números demonstram a necessidade urgente de ações direcionadas para a saúde pública que abordem as especificidades culturais e as barreiras de acesso enfrentadas por essas comunidades.
Portanto, é claro que a luta contra o tabagismo na Amazônia Legal requer um olhar atento e uma abordagem que leve em consideração tanto as características culturais das comunidades quanto a efetividade dos serviços de saúde. A integração de ações de comunicação e a disponibilização de recursos de saúde em localidades remotas são fundamentais para reverter esse cenário preocupante.
