Um Cenário Financeiro Desafiador
O São João do Rio Grande do Norte, realizado em 2025, registrou um recorde de despesas. O cantor Wesley Safadão, por exemplo, recebeu a impressionante quantia de R$ 1,1 milhão para se apresentar na Estação das Artes, em Mossoró. O mesmo valor foi pago a ele durante a FINECAP, em Pau dos Ferros. Esses números revelam uma situação preocupante: dois municípios com realidades orçamentárias distintas destinaram montantes equivalentes a um único artista. Tal disparidade já levanta questões sobre os gastos públicos nas festividades do estado.
Em um panorama mais amplo, o total de gastos com shows no ano de 2025 atingiu R$ 192,3 milhões em 2.363 contratos, todos registrados no Painel Festejos do Tribunal de Contas do Estado. Esse cenário coloca o Rio Grande do Norte no centro de um debate que se intensifica em outras regiões nordestinas, como Bahia, Pernambuco e Piauí, onde se questiona a viabilidade econômica de tais festividades.
Transparência e Gastos
Os dados financeiros estão disponíveis em fontes oficiais, como os Diários Oficiais dos Municípios e portais de transparência. Contudo, o desafio reside na falta de organização dessas informações. Ao analisar os dados, a média de gastos por contrato em 2025 foi de R$ 81.200. À primeira vista, parece um número aceitável, mas 75% dos contratos estavam abaixo de R$ 120 mil, enquanto apenas 1% dos contratos mais caros, que incluem artistas como Safadão e Luan Santana, puxam essa média para cima. No total, foram registrados sete contratos que superaram os R$ 800 mil.
Os Principais Gastos por Município
Quando se observa a distribuição desses gastos por município, Mossoró se destaca, com R$ 25,7 milhões, seguida por Natal, que gastou R$ 18,6 milhões. Os números que mais chamam a atenção vêm de cidades menores, como Assú, que gastou R$ 7,6 milhões, e Areia Branca, com R$ 6 milhões. Em municípios como Serra do Mel, com apenas 12 mil habitantes, o gasto foi de R$ 4,3 milhões. Essa situação sugere que algumas cidades comprometem parte significativa de suas receitas anuais em uma única temporada festiva. A questão persiste: como equilibrar a vinda de artistas nacionais de renome, cujos cachês são padronizados, com as limitações financeiras locais?
Mossoró e os Cachês em Alta
Mossoró Cidade Junina se consolidou como o maior evento público do estado, com cachês totais que ultrapassaram R$ 20 milhões. As apresentações mais dispendiosas ocorreram na Estação das Artes, com destaque para Safadão (R$ 1,1 milhão) e Luan Santana (R$ 985 mil). Com isso, a cidade se torna um exemplo evidente da disparidade entre os cachês pagos a artistas locais e nacionais. O maior pagamento a um artista potiguar, a Banda Grafith, foi de R$ 250 mil, o que representa menos de 23% do que Safadão recebeu por uma única apresentação.
Reações em Nível Regional
O Rio Grande do Norte não está isolado nessa discussão. A Bahia, por exemplo, estabeleceu um limite de R$ 700 mil para contratos de artistas, exigindo justificativas para valores superiores. Por outro lado, Pernambuco implantou um teto orientativo de R$ 350 mil, reconhecendo que a concorrência acirrada entre municípios tem inflacionado os cachês. Já no Piauí, a proposta de limite de R$ 400 mil busca garantir que os gastos não comprometam a saúde fiscal dos municípios.
A Sustentabilidade dos Gastos
A questão que surge, então, é: até que ponto os municípios devem gastar em festividades como o São João? As festas têm um papel importante ao impulsionar economias locais e promover a cultura nordestina, mas a sustentabilidade financeira desses eventos é crucial. O São João de Assú, por exemplo, está projetado para movimentar cerca de R$ 100 milhões na economia local.
Os dados financeiros de 2025 já estão disponíveis, e a expectativa é que 2026 traga mudanças nesse cenário. O Nordeste, como um todo, observa atentamente o impacto desses gastos em suas economias locais. As cidades precisam encontrar um equilíbrio entre a tradição e a saúde financeira, questionando se os altos investimentos nos festejos de São João são realmente sustentáveis a longo prazo.
