Um Thriller Imersivo na Floresta Amazônica
Em uma cena emblemática de ‘Rio de Sangue’, a protagonista, uma policial experiente, é lançada em um ambiente desolador, onde não conta com aliados, maquiagem e muito menos uma rede de segurança. Apenas ela, a densa floresta e a pressão do tempo. Essa é a proposta do diretor Gustavo Bonafé, conhecido por projetos como ‘Legalize Já!’ e ‘O Doutrinador’, que se aventurou no coração da Amazônia para filmar durante seis semanas. O resultado dessa empreitada acaba de estrear nos cinemas, carregado da responsabilidade de representar o potencial do cinema de ação brasileiro.
O filme narra a história de Patrícia Trindade, interpretada por Giovanna Antonelli, uma policial que se afasta da corporação após uma operação que não deu certo, ainda com a cabeça a prêmio por narcotraficantes. Em busca de um recomeço e da oportunidade de restaurar a relação com sua filha, ela se dirige a Santarém, no Pará, onde Luiza, sua filha interpretada por Alice Wegmann, trabalha em uma ONG que oferece assistência a comunidades indígenas na região do Alto Tapajós. Entretanto, o que deveria ser um recomeço tranquilo logo se transforma em um verdadeiro pesadelo quando Luiza é sequestrada durante uma emboscada armada por garimpeiros. A partir desse momento, Patrícia se vê em uma frenética corrida contra o tempo, sem espaço para erros.
O Nascimento do Projeto
O filme foi idealizado por Lucas Vivo, produtor executivo da INTRO Pictures, que tinha como objetivo criar uma ação genuinamente brasileira, com protagonistas femininas e uma narrativa que refletisse a atual crise do garimpo ilegal e as invasões de terras indígenas na Amazônia. Quando Bonafé foi convidado a dirigir, o roteiro já estava em desenvolvimento. Ele relata: “Trabalhamos por mais dois meses para aprimorar o texto e garantir que ele estivesse maduro o suficiente para ser filmado”. Essa dedicação se reflete na tela, onde a floresta se torna mais do que um mero pano de fundo; ela traz uma hostilidade que se traduz em cada aspecto visual e sonoro da obra.
Em busca de inspirações, Bonafé menciona várias referências que influenciaram o filme, mas destaca ‘Sicário’, de Denis Villeneuve, como uma obra que acompanhou de perto seu processo criativo. “Esse filme esteve presente em nossa trajetória”, confessa ele. Essa escolha é pertinente, pois tanto ‘Rio de Sangue’ quanto ‘Sicário’ apresentam protagonistas femininas inseridas em contextos de violência masculina, utilizando a tensão como um estado quase permanente, criando a sensação de que algo terrível pode acontecer a qualquer momento.
Uma Nova Faceta de Giovanna Antonelli
Os fãs que acompanhavam Giovanna Antonelli em suas novelas precisarão se adaptar a essa nova faceta da atriz. A personagem Patrícia, segundo o diretor, é “sem vaidade, não usa maquiagem, e possui uma complexidade emocional que refletem relações familiares conturbadas”. Apesar de as cenas de ação serem preparadas com dublês e coreografias profissionais, Bonafé menciona que o verdadeiro desafio para a atriz estava na construção emocional de uma personagem diferente de tudo que já havia interpretado até então. Essa ruptura foi o que a atraiu para o projeto, segundo Bonafé.
A atuação de Alice Wegmann como Luiza também é um ponto alto, pois ela desempenha o papel de motor emocional em uma narrativa que raramente desacelera. O elenco conta ainda com nomes como Felipe Simas, Antonio Calloni, Sérgio Menezes, Fidélis Baniwa e Ravel Andrade, que juntos constroem uma trama rica em nuances.
Caminhos para o Cinema Brasileiro
Durante a produção de ‘Rio de Sangue’, Bonafé se deparou com uma pergunta que permeia todo o filme, e que afirma que o mercado brasileiro já produz uma quantidade significativa de filmes de ação, principalmente na plataforma de streaming. Contudo, ele acredita que o cinema tradicional ainda possui espaço a ser explorado. “Muitas vezes erramos ao tentar adivinhar o que o público quer assistir, baseando-nos em sucessos recentes”, critica. “Um filme de terror faz sucesso, e então se busca repetir a fórmula. No entanto, o que realmente importa é que o público deseja ver bons filmes, independentemente do gênero”, conclui Bonafé, reafirmando sua visão de um cinema mais autêntico e despretensioso.
