Suspeita de fraude no Bolsa Família envolve empregadores de doméstica resgatada
Uma denúncia de fraude no Programa Bolsa Família entrou nas investigações sobre o caso de uma trabalhadora doméstica de 62 anos resgatada de uma situação análoga à escravidão em um condomínio de luxo em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. Segundo a Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT), os patrões teriam usado o benefício social como forma única de pagamento à trabalhadora, que recebia R$ 600 por mês. O valor era sacado pela própria empregadora e repassado à vítima.
Cadastro irregular e falta de remuneração por décadas
A auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes explicou ao G1 que a empregadora acompanhou a trabalhadora durante o cadastro no Cadastro Único, declarando que ela morava sozinha e estava desempregada. Essas informações, porém, não correspondiam à realidade da vítima.
Ao longo de 55 anos, a mulher prestou serviços domésticos para a mesma família sem registro em carteira e sem receber salário. Nesse período, o Bolsa Família passou a ser a única renda dela.
Dependência econômica e controle financeiro
A Auditoria-Fiscal do Trabalho aponta que a trabalhadora é analfabeta, não tem conta bancária e nunca teve controle direto sobre seu dinheiro. A empregadora sacava o benefício e entregava os valores para ela.
Após a divulgação do caso, o benefício foi cancelado. Um relatório será enviado aos órgãos competentes para apurar a possível fraude contra a administração pública. A Polícia Federal, procurada, não informou se abrirá investigação.
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Fonte: belembelem.com.br
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Fonte: reportersorocaba.com.br
Resgate e acompanhamento psicossocial
O resgate da trabalhadora ocorreu em junho, após denúncia anônima pelo Disque 100. A fiscalização concluiu que ela viveu 55 anos em uma relação marcada pela ausência de salário, dependência econômica e falta de acesso à educação.
A mulher chegou à residência da família aos 7 anos de idade, em 1971, e permaneceu vinculada ao núcleo familiar por três gerações. Após a morte da mãe, foi entregue a uma das filhas da antiga empregadora e continuou realizando atividades domésticas.
Mesmo depois do resgate, ela permanece temporariamente na casa onde viveu, acompanhada por equipes psicossociais para garantir uma transição gradual e a construção de sua autonomia.
Reação política e pedido de responsabilização
A deputada federal e pré-candidata ao Senado pelo Rio de Janeiro, Benedita da Silva (PT-RJ), declarou repúdio ao caso nas redes sociais, destacando a crueldade da situação vivida pela mulher desde os 7 anos de idade, sem salário, liberdade ou infância.
Ex-empregada doméstica, Benedita cobrou atuação do poder público com fiscalização rigorosa, Justiça do Trabalho e reparação plena. Para ela, o caso expõe uma estrutura histórica que naturaliza a exploração de mulheres negras e pobres.
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Fonte: londrinagora.com.br
Direitos trabalhistas e acordo com empregadores
Os fiscais calculam que a trabalhadora tem direito a mais de R$ 1,5 milhão em créditos trabalhistas, incluindo salários atrasados, férias, 13º salário, FGTS, verbas rescisórias e horas extras pelos descansos suprimidos.
Os empregadores reconheceram vínculo empregatício apenas desde 21 de julho de 2014, período referente à última residência onde ela trabalhou. Foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Trabalho, prevendo a regularização das contribuições previdenciárias do período reconhecido, pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias parceladas, compra de imóvel em nome da trabalhadora avaliado em R$ 150 mil, mobiliado, e custeio das contribuições até a aposentadoria.
Como denunciar violações de direitos humanos
Denúncias podem ser feitas pelo Disque 100, WhatsApp e Telegram. Pessoas surdas ou com deficiência auditiva têm acesso por videochamada em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Os relatos são encaminhados a órgãos de proteção e investigação, como conselhos estaduais, Centros de Referência Especializados de Assistência Social, delegacias e Ministério Público.
O Ministério dos Direitos Humanos acompanha essas denúncias após a saída da central do Disque 100, garantindo o encaminhamento e a fiscalização dos casos.
