Alerta Financeiro no Setor Agrícola
O cenário financeiro do agronegócio no Brasil acende um sinal de alerta para todos os envolvidos no setor. Em uma nota técnica divulgada pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), utilizando dados do Banco Central, foi revelado que a “carteira estressada” do crédito rural, que compreende atrasos, inadimplência e dívidas renegociadas, saltou de R$ 72,2 bilhões em julho de 2024 para R$ 123,6 bilhões em novembro de 2025. Essa impressionante alta de 71% em um ano demonstra uma deterioração acelerada, especialmente nos últimos meses.
Atualmente, cerca de 15% da carteira ativa de crédito rural no Brasil, que é estimada em R$ 812,7 bilhões, enfrenta algum tipo de estresse financeiro. Ao contrário de crises anteriores que foram desencadeadas por questões climáticas, a situação atual não se deve a fatores agrícolas. A Farsul destaca que, em 2025, o país teve uma safra recorde, o que indica que os problemas são de natureza econômica.
Taxa de Juros e Desequilíbrio Fiscal
A entidade aponta a elevação das taxas de juros como a principal responsável por esse quadro alarmante, mas enfatiza que a culpa não recai exclusivamente sobre a autoridade monetária. “O verdadeiro problema está no desequilíbrio fiscal, que pressiona a inflação e força a manutenção de juros elevados”, explica o relatório, reiterando o apoio às decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) em relação ao controle da inflação.
A análise da Medida Provisória nº 1.314/2025 e da Resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) nº 5.247/2025 revela distorções preocupantes para os produtores rurais. Dos R$ 28,2 bilhões renegociados até dezembro de 2025, apenas 19% (R$ 5,4 bilhões) foram financiados com recursos públicos subsidiados. Por outro lado, 81% (R$ 22,8 bilhões) foram renegociados utilizando recursos livres, sujeitos às taxas de mercado.
Impacto das Renegociações com Juros de Mercado
Para a Farsul, a reestruturação de dívidas a juros de mercado, em um contexto de Selic elevada, pode agravar ainda mais a situação financeira dos produtores. Com carência e parcelamento, o saldo devedor tende a aumentar, resultando em uma acumulação exponencial de passivos que pode precipitar novos episódios de estresse financeiro no futuro.
Outro aspecto preocupante é a forma como os recursos estão sendo direcionados. Embora o Tesouro Nacional tenha alocado uma parte significativa de seus recursos ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e ao Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), os demais produtores, que enfrentam o maior endividamento e condições financeiras mais desafiadoras, têm recorrente dependência dos juros de mercado. Dos R$ 22,8 bilhões renegociados por meio de recursos livres, 100% foram destinados a este grupo, evidenciando a ineficácia das políticas públicas voltadas para esses produtores.
Perspectivas Futuras e Recomendações
A previsão para o curto prazo não é otimista. Especialistas acreditam que a situação do crédito rural pode continuar a se deteriorar no primeiro semestre de 2026, com uma possível estabilização apenas após maio, dependente da normalização fiscal e da ausência de novos choques econômicos. Diante desse quadro alarmante, a Farsul defende a aprovação urgente do Projeto de Lei 5.122, atualmente em tramitação no Senado, como uma alternativa viável para reestruturar as dívidas do setor. Além disso, recomenda-se reduzir a dependência de renegociações atreladas a juros de mercado e acelerar soluções que tratem o núcleo do problema fiscal brasileiro, recalibrando os mecanismos de apoio para atender os produtores mais vulneráveis a essas taxas.
