Uma Abordagem Inovadora
Maria Dalva da Costa Correia da Silva, mãe de Thiago, vítima de violência policial, compartilha sua experiência: “Fui internada e sofri violência obstétrica. Meu filho nasceu sofrendo. Não vou sair do hospital sem ele”. Essa declaração impactante foi parte da aula do Curso “Maternidades e Violências: Fortalecimento do Direito à Saúde e Redes de Acolhimento”, realizado pela Rede Transnacional de Pesquisas sobre Maternidades Destituídas, Violadas e Violentadas (Rema/CNPq) em colaboração com o Centro Latino-Americano em Sexualidade e direitos humanos (Clam), vinculado ao Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS/Uerj).
O curso busca promover um debate profundo entre diversos setores, disciplinas e instituições sobre as intersecções entre maternidade e violência no Brasil. Nos últimos anos, pesquisas e relatos têm exposto as diferentes formas de violência que mulheres enfrentam em suas jornadas maternas. Essas agressões frequentemente se disfarçam sob o manto de proteção dos direitos, afetando principalmente mulheres que desafiam as normas sociais de maternidade, como aquelas de grupos vulneráveis, incluindo negras, indígenas, migrantes e moradoras de favelas.
O Impacto da Violência
Essas violências não apenas afetam as mães, mas reverberam em famílias e comunidades inteiras. Muitas vezes, as mães são vistas como culpadas por falharem em corresponder a um padrão de cuidado esperado, resultando em intervenções moralizantes que amplificam sua vulnerabilidade.
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O curso propõe reunir pesquisadoras, gestoras e ativistas para uma reflexão crítica sobre três tipos de violência: a separação forçada de crianças de suas famílias, a violência e o racismo obstétricos, e as intervenções estatais que resultam na morte ou encarceramento de mães e filhos. A proposta é discutir os direitos reprodutivos sob uma ótica interseccional, destacando a importância de garantir a escolha de ser mãe e a necessidade de uma maternidade livre de violências.
Uma Tecnologia Social Feminista
Denominado “Maternidades e Violências”, o curso é online e gratuito, disponível na plataforma Telessaúde Uerj. Composto por uma aula introdutória e seis aulas em três módulos, o curso também promove rodas de conversa online. Essa iniciativa surgiu após intensas discussões na equipe da Rema, com a intenção de evitar uma abordagem hierárquica e normativa, que poderia alienar os participantes.
O objetivo era promover uma reflexão fundamentada nas vivências e experiências de ativismo, permitindo que os participantes desnaturalizassem suas práticas e realidades cotidianas. As docentes foram escolhidas de forma a combinar saberes etnográficos com vivências práticas e experiências em direitos humanos. Por exemplo, o módulo “Maternidades Destituídas” conta com a participação de Janaína Gomes e Hilda Corrêa de Oliveira, enquanto “Maternidades Violadas” é ministrado por Janaína Teresa Gentili e Ariana de Souza Rodrigues dos Santos.
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Fonte: triangulodeminas.com.br
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Fonte: soudejuazeiro.com.br
Alcance e Inclusão
Embora o curso tenha sido originalmente projetado para o Estado do Rio de Janeiro, sua divulgação nas redes sociais atraiu participantes de todo o Brasil. Desde sua implantação, as rodas de conversa têm reunido profissionais de diversas áreas, incluindo saúde, assistência social e justiça. A diversidade geográfica dos participantes tem enriquecido as discussões, com a presença de mulheres de diferentes regiões do país, refletindo sobre temas que transcendem fronteiras.
O curso é uma resposta à demanda por conhecimento que desafie a transferência unilateral de saberes, promovendo a construção coletiva do conhecimento e a valorização das experiências vividas pelas mulheres. Essa abordagem se configura como uma tecnologia social que reconhece o papel fundamental das mulheres na construção de alternativas sociotécnicas que atendam às necessidades das comunidades.
Rodas de Conversa e Reflexões
As rodas de conversa, realizadas em maio de 2025, contaram com a participação de profissionais e pesquisadoras, predominantemente mulheres, atuantes em diversas áreas das políticas sociais e saúde. A discussão abordou os três eixos temáticos do curso: Maternidades Destituídas, Maternidades Violadas e Maternidades Violentadas, revelando as tensões e desafios enfrentados no dia a dia. Por exemplo, uma psicóloga do Rio de Janeiro destacou a pressão institucional para monitorar as famílias e o consequente impacto nas mulheres, que frequentemente se sentem culpadas pela sua situação de vulnerabilidade.
Educação e Mudança
Falas como a de Maria Dalva, que destacou a necessidade de reconhecer o sofrimento das mães como uma questão de feminicídio, evidenciam a urgência desse debate. O curso não apenas promove a educação e a sensibilização sobre as desigualdades enfrentadas pelas mães, mas também busca fortalecer as redes de acolhimento para as mulheres que enfrentam a violência institucional. Essa experiência se mostra crucial, uma vez que muitas participantes relataram medo e desgaste emocional ao lidarem com a complexidade de suas funções e a necessidade de criar vínculos com as famílias atendidas. Assim, a proposta do curso se configura como uma tecnologia social feminista, capaz de articular saberes e transformar as práticas institucionais, promovendo efetivamente os direitos humanos das mulheres no Brasil.
