Desvendando os Desafios da Indústria Cinematográfica
Com a recente sequência de sucessos brasileiros como “Ainda Estou Aqui” e agora “O Agente Secreto”, pode parecer que a chegada de filmes nacionais ao Oscar se tornou algo comum. Contudo, por trás das câmeras e das cortinas dos festivais, existe um trabalho intenso e meticuloso que envolve administração de tempo, orçamento e, claro, um toque de política. Nesse cenário, o produtor desempenha um papel crucial. Para que um longa de Kleber Mendonça Filho alcance o reconhecimento internacional, não basta apenas a qualidade do filme; é preciso uma estratégia bem planejada, seleção cuidadosa de parceiros e uma extensa jornada de exibições e conexões com os votantes.
Numa entrevista ao Estúdio CBN, a produtora Emilie Lesclaux compartilhou detalhes sobre essa trajetória. Francesa radicada no Brasil desde os anos 2000 e parceira, tanto profissional quanto pessoal, de Kleber, ela revelou que a jornada do filme teve início na fase de finalização, quando a equipe decidiu apostar no renomado Festival de Cannes, onde o filme foi selecionado e, consequentemente, vendido para distribuição internacional.
“A partir de Cannes, o filme muda de fase. Os distribuidores têm a oportunidade de adquirir os direitos de exibição ali mesmo, e tivemos a sorte de contar com a Neon, uma distribuidora de grande relevância nos Estados Unidos, que comprou o filme”, comentou Lesclaux.
A Estrutura de uma Campanha de Sucesso
De acordo com a produtora, a dimensão e a expertise da Neon foram fatores determinantes para posicionar o longa como um candidato forte na temporada de premiações. Após a venda, iniciou-se uma verdadeira maratona de viagens, exibições especiais e eventos voltados para apresentar o filme a aqueles que votam nas principais premiações cinematográficas. Lesclaux enfatizou que essa operação é não apenas custosa, mas também demanda um planejamento preciso.
“É como uma campanha política. Você deve interagir com muitas pessoas, dialogar, seduzir os votantes. E isso envolve investimentos significativos, pois o objetivo é exibir o filme para o maior número possível de votantes”, explicou.
O esforço resultou em reconhecimento: “O Agente Secreto” conquistou quatro indicações ao Oscar, incluindo a nova categoria de Escolha de Elenco. Para Lesclaux, essa homenagem tem um significado especial, uma vez que o trabalho em equipe do elenco sempre foi considerado uma das maiores forças do filme.
Uma Trajetória Inusitada no Cinema
A produtora compartilhou que a sua conexão com o cinema brasileiro começou de maneira quase casual no Recife. Formada em Ciências Políticas na França, Emilie se mudou para o Brasil para atuar no consulado francês, mas logo se viu imersa no ambiente cultural e cinematográfico local.
Nessa fase, conheceu Kleber Mendonça Filho, que na época era crítico e programador de cinema. O encontro levou a produtora a colaborar em curtas-metragens, onde começou a aprender o ofício de maneira artesanal. Passadas duas décadas, essa parceria evoluiu, resultando em uma filmografia que inclui títulos como “O Som ao Redor”, “Aquarius”, “Bacurau” e agora “O Agente Secreto”.
