Desafios na Gestão de Allyson Bezerra
O prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, construiu sua imagem política alicerçada em uma narrativa de gestor moderno e eficiente, prometendo um rigoroso equilíbrio nas contas públicas. Contudo, a realidade se impõe com frieza, confrontando essa imagem cuidadosamente construída. Recentemente, o parecer prévio do Ministério Público de Contas (MPC) recomendou a desaprovação das contas de 2023 da gestão de Bezerra, um alerta institucional que vai além de um mero detalhe burocrático.
De acordo com o MPC, a gestão municipal abriu créditos suplementares que somam R$ 338,6 milhões, ou 28,43% do orçamento, ultrapassando o limite de 25% estabelecido pela Lei Orçamentária Anual (LOA). Essa violação não é apenas uma questão técnica; trata-se de um desvio claro dos princípios da administração pública, que preveem o respeito às diretrizes orçamentárias.
A situação se torna ainda mais irônica quando se considera que Bezerra se apresenta como um símbolo de responsabilidade fiscal. É como um professor de matemática cometendo um erro na conta mais básica. O corpo técnico do Tribunal de Contas do Estado (TCE) tentou amenizar a questão, tratando a irregularidade como passível de recomendação. Entretanto, o MPC adotou uma postura firme ao tratar a situação como uma violação direta aos princípios da legalidade e responsabilidade fiscal.
Implicações Políticas e Morais
Essa realidade muda o foco do debate de uma questão técnica para uma discussão que envolve aspectos políticos e morais. A credibilidade de um gestor que ultrapassa limites legais enquanto defende um discurso de rigor administrativo é seriamente questionada. Além disso, o atraso no envio da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e da própria LOA ao TCE – 409 dias e 190 dias, respectivamente – intensifica a percepção de desorganização ou descuido com processos cruciais da gestão pública.
Embora esses atrasos possam não ter comprometido a análise técnica, eles colocam em xeque a narrativa de eficiência que Bezerra sempre promoveu. Em seu governo, a comunicação política, especialmente nas redes sociais, se destacou. No entanto, é fundamental distinguir entre uma boa comunicação e uma gestão realmente eficaz. Quando os números são apresentados, não há espaço para edições ou roteirizações; apenas a realidade se mostra.
Uma Contradição Difícil de Ignorar
Os defensores do prefeito podem argumentar que não houve má-fé ou danos diretos ao erário, o que, de fato, é relevante. No entanto, isso não é suficiente para considerar sua gestão exemplar. A boa administração pública deve ser avaliada não apenas pela ausência de dolo, mas pela observância rigorosa das regras estabelecidas. O que diferencia um gestor responsável de um improvisador é, em última análise, a adesão aos limites legais, mesmo que esses limites sejam considerados inconvenientes.
Esse episódio expõe uma contradição que não pode ser ignorada: enquanto Bezerra se apresenta como uma alternativa para trazer mudanças significativas ao Rio Grande do Norte, sua própria condução administrativa em Mossoró é questionada. É uma ironia notável, que levanta a questão: antes de propor transformações em um estado inteiro, seria prudente garantir que suas próprias contas estejam em ordem.
A Importância dos Detalhes na Gestão Pública
Por fim, o eleitor pode ser atraído por discursos cativantes, mas é nos detalhes técnicos – muitas vezes invisíveis ao público – que se revela a verdadeira qualidade da gestão. Neste contexto, os detalhes falam alto e exigem atenção, pois são eles que muitas vezes determinam o destino político de um gestor.
O futuro de Allyson Bezerra à frente da Prefeitura de Mossoró depende, agora, de sua capacidade de lidar com essa realidade e de restaurar a confiança do eleitorado.
