Quando a Religião Toma o Centro do Debate
A recente polêmica envolvendo Silas Malafaia e Damares Alves ilustra perfeitamente a dinâmica que impera no ambiente digital: figuras conhecidas, declarações impactantes e um cenário de divisão. Este tipo de episódio alimenta a narrativa do embate entre lados opostos, criando uma sensação de que se está acompanhando um verdadeiro embate político, quando, na realidade, o que se vê é um espetáculo, muitas vezes comparável a uma ‘lavação de roupa suja’, típica dos reality shows.
Mas, essa barulheira não é desprovida de significado. Ela funciona como uma cortina de fumaça que nos distrai dos temas mais relevantes. Ao focarmos nas disputas de retórica, deixamos de lado a essência da questão: as razões que tornam esse tipo de debate tão impactante.
Cultura e Religião no Debate Político
O incômodo manifestado quando a religião se insere de forma explícita na política brasileira não é de natureza jurídica, mas cultural. Uma parte significativa da população aceita que sindicatos, entidades empresariais e movimentos identitários se manifestem politicamente. Porém, a mesma abertura não é geralmente estendida às vozes que emergem de púlpitos religiosos. Nesse contexto, surgem os alertas morais: “mistura perigosa”, “ameaça à democracia”, “retrocesso”.
A indagação pertinente é: por que alguns grupos são considerados parte da ‘sociedade civil’ enquanto outros são vistos como uma ameaça à democracia? Muitas vezes, a resposta não reside na legislação, mas na percepção cultural de que a religião deve ser uma mera ornamentação social: aceitável em feriados, útil em situações de tragédia, mas indesejável nas discussões políticas.
A Nova Face da Política Religiosa
A relação entre política e religião no Brasil não é nova. O que mudou é que a comunidade religiosa, especialmente a evangélica, evoluiu de um mero suporte social para uma consciência política ativa, alterando assim as regras do jogo. A fé não é apenas uma questão de preferência; ela molda uma cosmovisão que determina noções de bem, justiça e deveres.
Essa interseção resulta em um impacto previsível: quando um grupo religioso participa do debate público, não o faz apenas com opiniões, mas com uma estrutura moral abrangente. Em um país que discute questões fundamentais como família, educação e liberdade, essa linguagem moral se torna crucial.
Laicidade e o Debate Público
A palavra “laicidade” frequentemente surge como um mantra que encerra as discussões: “o Estado é laico”. Embora isso seja verdade, muitas vezes esse conceito é utilizado de forma retórica para afastar do debate o que não se consegue refutar. Laicidade não implica em excluir a religião da política; tal postura seria um laicismo militante que não extingue crenças, mas impõe uma visão secular como se fosse uma forma de neutralidade.
Um Estado verdadeiramente laico é aquele que não adota nenhuma religião oficial, permitindo que cidadãos religiosos se manifestem politicamente. O pluralismo político só se concretiza quando há espaço para convicções diversas, incluindo as religiosas. Caso contrário, a democracia se torna uma arena curiosa: onde todos podem se expressar, desde que adotem a ‘linguagem correta’.
O Papel da Religião nas Eleições
Com a aproximação do ano eleitoral, o debate sobre a presença de Deus na política se intensifica. Alguns o fazem movidos pela fé genuína; outros, por motivos comerciais. É importante reconhecer que o oportunismo não é exclusivo de um único setor. Existem práticas semelhantes no mundo empresarial, sindical e acadêmico. O foco deve estar na moralidade das ações, não no segmento envolvido.
Transformar a menção a Deus em um sinal de irregularidade democrática não é o caminho a seguir. A democracia não impõe que os cidadãos abandonem suas convicções ao adentrar nos espaços políticos. Pelo contrário, requer respeito às normas do jogo: Constituição, leis e direitos fundamentais.
Entre Exclusão e Captura da Religião
O cenário que se desenha é claro: candidatos usarão a linguagem religiosa como uma forma de se conectar moralmente com o eleitorado. Não porque a fé tenha ‘tomado’ a política, mas porque a política percebeu que a fé sempre esteve presente na sociedade.
Há dois riscos a serem considerados. O primeiro é a tentativa de afastar a religião do espaço público, tratando-a como uma intrusa. Isso pode gerar ressentimento, radicalizar grupos e empobrecer o debate. O segundo é a captura da religião pela política, desvirtuando-a em uma ferramenta de mobilização eleitoral. Nesse caso, a religião perde seu valor transcendente, tornando-se um mero instrumento.
A Caminho de um Debate Saudável
Entre a exclusão e a manipulação, existe um caminho mais construtivo: reconhecer que a religião deve ocupar um papel no espaço público como fonte de valores e críticas morais, sem confundir-se com o Estado. O episódio envolvendo Malafaia e Damares reflete uma realidade: atores religiosos atuam no jogo democrático. Essa não é uma anomalia, mas uma parte intrínseca da política.
A política nunca foi um campo imune a convicções profundas e disputas simbólicas. Portanto, a solução não é silenciar ou glorificar, mas reconhecer que temos liberdade para influenciar e que, simultaneamente, somos suscetíveis a influências. O que a democracia nos promete não é pureza, mas convivência pacífica e gestão de conflitos.
A laicidade no Brasil, quando respeitada, não expulsa o sagrado nem o glorifica. Ela permite que as vozes religiosas se manifestem sem dominarem o espaço público, enquanto o Estado mantém sua governança sem se tornar um culto.
