A tradição do sal que move Grossos
O branco intenso do sal domina a paisagem de Grossos, município do Rio Grande do Norte onde a atividade salineira artesanal segue presente em mais de 100 salinas em funcionamento, conforme dados da prefeitura local. O estado responde por cerca de 95% da produção brasileira de sal marinho, consolidando a importância econômica dessa atividade na região.
Raízes históricas ligadas ao sal
Grossos tem sua história diretamente ligada às salinas naturais, que atraíram colonos portugueses desde o século 18. O município, com seus 9,3 km de litoral banhados pelo Oceano Atlântico, cresceu sob essa influência. No século 19, a produção de sal ganhou força econômica e impulsionou o fluxo de trabalhadores e comerciantes para a região. Em 1953, Grossos conquistou autonomia administrativa, separando-se de Areia Branca. Atualmente, ocupa uma área de 124,538 km² e faz divisa com Mossoró, Areia Branca e Tibau, municípios potiguares que também dialogam com o litoral e o interior. Essa trajetória reforça a presença do sal na economia local, na memória coletiva e na paisagem.
Como o sal é produzido em Grossos?
A produção do sal marinho segue etapas bem definidas, iniciando com a captação da água do mar e passando pela evaporação, cristalização, colheita, lavagem, secagem e beneficiamento, conforme explica a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Cada fase impacta diretamente a qualidade e o rendimento do sal. A lavagem, por exemplo, busca eliminar impurezas como cálcio e magnésio. Durante a evaporação, a concentração dos sais aumenta, favorecendo a formação dos cristais nos tanques chamados cristalizadores, etapa crucial antes da colheita.
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Em 2026, pesquisadores da UERN testaram o uso de zeólitas para reduzir a presença de cálcio e magnésio antes da cristalização. Os experimentos mostraram que os sistemas filtrantes diminuíram em cerca de 35% a dureza da água nos primeiros minutos, evitando que essas impurezas afetem o sal formado. Essa tecnologia recebeu pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial, representando um avanço importante para a qualidade do produto local.
Importância econômica do sal potiguar para o Brasil
O peso da produção de sal do Rio Grande do Norte é evidente quando se observa que o estado concentra aproximadamente 95% do sal marinho produzido no país, segundo dados da UERN baseados no Sumário Mineral Brasileiro. Essa participação reforça o papel estratégico da atividade para diversas cadeias econômicas, que vão além do consumo doméstico, incluindo mercados alimentícios e químicos.
Além disso, estudos da Fundacentro evidenciam as condições de trabalho nas salinas potiguares, destacando riscos como poeira, calor extremo, ruído e movimentos repetitivos, que afetam diretamente a saúde dos trabalhadores. Pesquisas específicas realizadas em Grossos e Mossoró abordaram desde a exposição à poeira até os impactos do calor intenso. Isso revela que a rotina nas salinas exige atenção constante à saúde ocupacional, reforçando a necessidade de regulamentações e cuidados adequados.
A modernização das salinas artesanais
Grossos preserva uma tradição secular, mantendo mais de 100 salinas artesanais em atividade, única no Brasil segundo a prefeitura municipal. Em 2025, a administração local iniciou reuniões com produtores para fortalecer a produção e avançar no licenciamento ambiental. Em março de 2026, mais de 50 produtores receberam licenças ambientais, parte de um processo de regularização que também já emitiu mais de 100 certidões de uso e ocupação do solo desde 2025.
Esse esforço conjunto envolve a prefeitura, consultorias ambientais e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). A iniciativa busca conciliar a continuidade da produção artesanal com as normas ambientais vigentes, garantindo condições adequadas para os trabalhadores e formalizando a atividade junto ao poder público. Assim, uma prática tradicional se adapta às exigências atuais sem perder sua essência.
Grossos: uma paisagem branca que conta história
O sal é mais do que um produto em Grossos: é a chave para compreender a formação do município, sua economia e a memória construída por gerações. As salinas artesanais permanecem vivas em uma região que mantém o protagonismo na produção nacional de sal marinho. Para quem acompanha como atividades antigas ainda influenciam o cotidiano, Grossos representa uma história brasileira pouco conhecida, onde a faixa costeira branca traduz séculos de trabalho, adaptação e continuidade econômica.
