Reabertura da Galeria Newton Navarro marca nova fase para a arte em Natal
Após três décadas, a Galeria Newton Navarro, gerida pela Fundação Cultural Capitania das Artes (Funcarte), reabre suas portas na próxima quinta-feira, 9, às 18h. A ocasião será celebrada com a exposição “Paisagens inquietas em Newton Navarro”, que apresenta cerca de 60 obras do renomado artista potiguar. Além das pinturas e desenhos, o público poderá conferir cadernos originais, livros, documentos, vídeos e entrevistas históricas, acompanhados de recursos inéditos de acessibilidade.
Modernização e preservação do patrimônio cultural
O espaço passou por uma requalificação completa, incluindo melhorias na iluminação, climatização, áreas expositivas e a criação de uma reserva técnica para conservação do acervo municipal. Com investimento de R$ 600 mil, oriundo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) do Ministério da Cultura, a intervenção foi a maior desde a inauguração da galeria, em 1975. Foram atualizadas as instalações elétricas, o sistema de refrigeração e o controle ambiental, ampliando a preservação das obras, que abrangem pinturas, esculturas e outras peças.
Paralelamente, a Prefeitura do Natal, com recursos próprios, iniciou a recuperação de obras do acervo que apresentavam danos causados pelo tempo, como fungos e manchas, reforçando o compromisso com a conservação do patrimônio cultural local.
Newton Navarro: múltiplas facetas de um ícone da cultura potiguar
Newton Navarro é reconhecido como um dos principais nomes da arte moderna no Rio Grande do Norte. Sua atuação vai além da pintura e desenho, incluindo a escrita, dramaturgia, crônicas e o incentivo à cultura local. Sua obra ajudou a construir a identidade visual e cultural de Natal e do estado, retratando paisagens, personagens e tradições que dialogam diretamente com a região.
A mostra “Paisagens inquietas em Newton Navarro” reúne obras provenientes tanto de acervos públicos quanto de coleções particulares. Entre os destaques estão nove cadernos de rascunhos originais, livros, reportagens e seis obras animadas, além de depoimentos raros, como uma entrevista concedida ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo na década de 1980.
Exposição inclusiva e programação cultural ampliada
A secretária de Cultura de Natal e presidente da Funcarte, Iracy Azevedo, ressaltou que a exposição representa um reencontro da cidade com um de seus maiores criadores. Segundo ela, “Newton Navarro volta a nos conduzir, com delicadeza e força, ao coração da cidade que ele tão profundamente amou e soube traduzir em sua arte”. A reabertura da galeria, com sua nova configuração, permite a realização simultânea de até três exposições de pequeno porte, ampliando as possibilidades de uso do espaço cultural.
Após a mostra inaugural, a programação prevê a exposição “Anos 90”, idealizada por um estudante universitário, seguida por uma mostra em negociação dedicada ao artista Dorian Gray. A curadoria de “Paisagens inquietas em Newton Navarro” é assinada por Sanzia Pinheiro e Danielle Brito, que apresentam uma leitura abrangente da trajetória do artista, destacando sua atuação como poeta, dramaturgo, jornalista, muralista e agitador cultural.
Poética e acessibilidade na arte de Newton Navarro
As curadoras descrevem a paisagem retratada pelo artista como uma “invenção contínua”, onde elementos como rios, mar, sertão e cidade ganham movimento, ritmo e dimensão poética. A exposição convida o público a reencontrar um artista cuja presença segue viva, inspirando reflexões sobre cultura, cidade e identidade norte-rio-grandense.
A mostra foi pensada com foco inclusivo: dez obras contam com versões sensoriais, acompanhadas por fichas técnicas em braille e audiodescrição. Foi criado ainda o sinal de “Navarro” em Libras, tornando a exposição pioneira no Rio Grande do Norte por reunir uma série de recursos de acessibilidade. Imagens em 3D e outros recursos são destinados a pessoas com deficiência visual, auditiva, autistas e outros públicos, desenvolvidos com o apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Funcionamento e legado cultural
A Galeria Newton Navarro funcionará de terça a domingo, das 9h às 16h, com entrada gratuita. O uso do espaço para futuras exposições seguirá normas que garantem a preservação da estrutura e do acervo municipal, sem cobrança pelo uso, desde que os critérios de conservação e contrapartidas sejam respeitados.
Newton Navarro nasceu em Natal em 8 de outubro de 1928 e teve uma formação ampla, estudando com nomes como Lula Cardoso Ayres, Hélio Feijó, Oswaldo Goeldi e André Lhote. Sua carreira abrangeu pinturas, desenhos, gravuras, poemas, contos, crônicas e peças teatrais. Fundou a Escolinha de Arte Cândido Portinari, dirigiu a Galeria de Arte da Prefeitura de Natal e expôs em importantes cidades brasileiras e internacionais.
Entre suas obras literárias estão “Subúrbio do Silêncio”, “Solitário Vento do Verão”, “Os Mortos são Estrangeiros” e “Do outro lado do rio”. Na arte visual, destacou-se pelas séries dedicadas a jangadeiros, vaqueiros, pescadores, rendeiras e paisagens do rio Potengi e da Redinha. Newton Navarro faleceu em 18 de março de 1992, em Natal, deixando um legado fundamental para a cultura do Rio Grande do Norte.
