Commodities como Forma de Pagamento
O termo ‘barter’, que em inglês se refere a troca ou permuta, vem ganhando destaque no setor agrícola brasileiro. Esta modalidade permite que os produtores rurais utilizem parte da sua produção futura para adquirir insumos, máquinas e implementos necessários para suas atividades. Essa estratégia tem se mostrado especialmente útil em um cenário onde os juros estão em alta. Segundo o professor José Carlos de Lima, especialista em gestão de negócios e cofundador da Harven Agribusiness School, atualmente, estima-se que entre 35% a 40% das transações no agronegócio sejam realizadas via barter.
O professor explica que a operação funciona como uma triangulação: “O produtor adquire o insumo que necessita e efetua o pagamento com o seu produto. Muitas vezes, esse produto é utilizado para travar preços na bolsa, facilitando a gestão de riscos financeiros”. Essa flexibilidade tem atraído cada vez mais agricultores e empresas do setor.
A Demanda Crescente pelo Barter
William Novas, gerente de crédito da Baldan, afirma que o modelo barter vem ajudando a destravar negócios em um mercado que enfrenta restrições de crédito. “Com os juros elevados, o barter surgiu como uma alternativa viável para atender à demanda do setor agrícola. Desde o seu lançamento, observamos um aumento significativo nas operações e esperamos que, na Agrishow 2026, esse número seja ainda maior”, comenta.
Mas como funciona na prática? O processo começa quando o agricultor decide quais insumos ou máquinas necessita. Após essa definição, a negociação é feita normalmente com o fabricante ou revendedor, que recebe o pagamento em dinheiro através de uma trading. Essa trading, atua como intermediária, garantindo que o agricultor entregue a quantidade estipulada de grãos após a colheita, oferecendo assim previsibilidade tanto para o produtor quanto para a empresa fornecedora.
Vantagens e Desafios do Modelo Barter
Uma das principais vantagens dessa modalidade é que ela minimiza a exposição do agricultor a flutuações de crédito e inflação. Antes da utilização do barter, o produtor precisava recorrer a bancos, pegar empréstimos e, após a venda da produção, saldar suas dívidas. Com a nova abordagem, os riscos financeiros são reduzidos, visto que as transações envolvem commodities com preços fixados previamente.
Entretanto, a gestão de riscos se torna crucial. As trading realizam análises detalhadas sobre o histórico de produtividade, a localização das propriedades e até mesmo os riscos climáticos e fitossanitários. Essas avaliações garantem que o produtor cumpra os termos do contrato e que a trading receba a produção acordada.
O Crescimento do Barter no Brasil
A modalidade barter ganhou força no Brasil principalmente devido à expansão do mercado de commodities, impulsionada pela alta demanda da China por soja em 2008 e 2009. O professor José Carlos de Lima explica que o aumento significativo das compras chinesas obrigou o mercado a encontrar maneiras de originar esses produtos. “Transformar a soja e outras produções em moeda dentro dessa cadeia foi a solução mais prática”, diz.
Atualmente, o barter se consolidou como uma prática comum em diversas operações agrícolas. Se antes era mais utilizado na compra de sementes e fertilizantes, hoje essa modalidade se estende à aquisição de máquinas e equipamentos, principalmente em uma era de crédito restrito. Para Novas, a previsibilidade financeira conquistada através do barter é uma das suas maiores vantagens.
“Essa modalidade permite ao produtor saber exatamente quanto irá vender o grão na data acordada e, consequentemente, travar custos, o que proporciona uma segurança financeira valiosa”, conclui.
