Cenário Atual: A Crise dos Fertilizantes
A recente disparada nos preços dos fertilizantes, somada às novas restrições de exportação impostas pela China e Rússia, desnuda a vulnerabilidade do Brasil em sua dependência de insumos agrícolas importados. Este cenário, que já se mostrava preocupante, agora se agrava com as tensões geopolíticas envolvendo o Irã, um dos principais produtores globais, que resultaram em um aumento considerável no preço da ureia.
Com a ureia alcançando impressionantes US$ 710 por tonelada nos portos brasileiros—um salto de 50% em apenas 30 dias—os produtores rurais enfrentam um desafio maior na gestão de custos, o que pode provocar uma inflação alimentar ainda mais acentuada na próxima safra. A consultoria agro do Itaú BBA alerta que o aumento nos preços não é uma mera oscilação, mas um reflexo direto das tensões no Oriente Médio, afetando a logística de suprimentos já comprometedores.
Implicações das Restrições de Exportação
Simultaneamente, a Rússia e a China, em um movimento que prioriza seus próprios mercados internos, restringiram as exportações de adubos químicos. A Rússia suspendeu temporariamente a exportação de nitrato de amônio, enquanto a China limitou a venda de fertilizantes fosfatados. Essa estratégia, embora vise evitar o aumento de custos internos, reduz ainda mais a oferta global, colocando em cheque a segurança alimentar do Brasil.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que a Rússia é responsável por quase 26% das importações brasileiras de fertilizantes, enquanto a China ocupa o terceiro lugar no fornecimento, com cerca de 40 milhões de toneladas de insumos sob rígidas cotas ou bloqueios. Essa situação é um alerta que não pode ser ignorado.
Possíveis Consequências para a Safra Futura
A previsão é que a redução na oferta e o aumento nos preços não afetem o agro brasileiro de forma imediata, já que os insumos adquiridos para o plantio atual estão garantidos. No entanto, se a situação não se normalizar até o segundo semestre, os novos embarques poderão chegar com preços inflacionados, impactando diretamente o início do plantio da safra 2026/27.
Enquanto a Rússia planeja liberar os embarques em maio, a expectativa é que a China retome suas exportações apenas em agosto. Para os analistas da Cogo Inteligência em Agronegócio, essa instabilidade no setor de fertilizantes deve ser acompanhada de perto, especialmente com a volatilidade cambial e o aumento nos custos de frete global, que estão pressionando as projeções para as próximas safras.
Riscos para o Setor e a Necessidade de Ações
Técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) já classificaram a situação como de “elevadíssimo risco” para o setor de fertilizantes no Brasil, apontando a possibilidade de elevação nos preços internos e até desabastecimento nas safras que estão por vir. A situação permanece delicada e sem soluções aparentes, levando à estagnação do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), que visa diminuir a dependência externa de 85% para 45% até 2050.
A senadora Tereza Cristina (PL-SP), responsável por implementar o PNF, criticou a falta de ação política desde a última crise provocada pela guerra na Ucrânia. “O Brasil não avançou em políticas públicas e continua dependente de mais de 80% de fertilizantes importados”, enfatizou, ressaltando que isso poderia resultar em uma repetição do cenário problemático enfrentado em 2022.
Desafios Estruturais e Estrangulamento da Produção Nacional
Os desafios para aumentar a produção nacional de fertilizantes vão além da política e incluem problemas estruturais que dificultam a expansão. No setor de nitrogenados, por exemplo, o custo do gás natural no Brasil chega a ser três vezes maior do que nos Estados Unidos e na Rússia, inviabilizando a competitividade. Além disso, projetos de potássio enfrentam obstáculos regulatórios e disputas judiciais, especialmente em regiões ambientalmente sensíveis.
A chamada “tarifa inversa”, que encarece o fertilizante nacional em comparação ao importado, também é um fator que desestimula os investimentos na produção interna. A Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) alerta que essa configuração prejudica a autonomia do Brasil e perpetua sua dependência externa, necessitando de uma resposta eficaz para evitar a crise no setor.
