A Batalha Eleitoral em São Paulo
São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, representa 22% do total de eleitores do país e sempre foi um grande desafio para o Partido dos Trabalhadores (PT). Embora tenha surgido neste estado, o PT nunca conseguiu governá-lo. Assim, em cada eleição, cada voto paulista é crucial para a sigla, podendo ser determinante na configuração final da disputa, mesmo que a vitória estadual não seja alcançada. As últimas eleições presidenciais ilustram como o desempenho no estado pode influenciar a corrida federal. Em 2018, Jair Bolsonaro obteve 8 milhões de votos a mais que Fernando Haddad, seu concorrente, e conquistou a presidência. Em 2022, no entanto, a diferença entre Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva caiu significativamente, para 2,7 milhões, uma redução de 5 milhões de votos, o que foi crucial para a derrota de Lula.
Curiosamente, o responsável pelo desempenho do PT em São Paulo em 2022 foi o próprio Haddad. Como candidato a governador, ele chegou ao segundo turno contra Tarcísio de Freitas, conquistando 45% dos votos para a chapa de Lula, um resultado muito superior ao de Luiz Marinho, que, em 2018, obteve apenas 12% no primeiro turno. Em razão disso, o PT decidiu repetir a estratégia e novamente lançar Haddad contra Tarcísio, acreditando que uma derrota apertada poderia, de alguma forma, beneficiar Lula em sua busca pelo quarto mandato.
Os Desafios de Uma Nova Candidatura
Entretanto, essa estratégia embute riscos significativos. O principal deles é o forte favoritismo de Tarcísio de Freitas, que goza de uma alta taxa de aprovação (67% segundo pesquisa do Paraná Pesquisas) e lidera as intenções de voto, podendo até vencer a eleição já no primeiro turno, com 51% contra 27,7% de Haddad. Além disso, ao contrário de quatro anos atrás, quando Tarcísio estava em sua primeira disputa, ele agora ocupa a posição de governador e poderá se reeleger sem deixar o cargo.
Outro fator preocupante para o PT é o fortalecimento de Tarcísio após a aliança com Flávio Bolsonaro, que ascendeu rapidamente nas pesquisas e já representa uma ameaça à vitória de Lula. Essa parceria não apenas garante o apoio do eleitorado bolsonarista em São Paulo, como também confere a Tarcísio um papel central na coordenação da campanha presidencial no estado, ampliando sua influência política e solidificando laços com partidos de direita, especialmente o PL.
Um Histórico Complicado e a Hesitação de Haddad
O histórico do PT em São Paulo não é animador. Desde sua fundação em 1980, a sigla participou de 11 disputas ao governo do estado, sendo a primeira em 1982 com Lula, que obteve apenas 11% dos votos. A sigla nunca conseguiu eleger um governador e, em apenas duas ocasiões, chegou ao segundo turno — em 2002, com José Genoino, e em 2022, com Haddad. A última vitória em uma eleição para o Senado foi com Marta Suplicy, em 2010. Segundo o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), existe um desalinhamento entre o eleitor paulista e o lulismo, principalmente entre os eleitores do interior e da classe média urbana. Para Lula, vencer em 2026 passa por São Paulo: não é necessário ganhar, mas sim minimizar a derrota e reduzir a diferença em relação ao adversário.
Haddad, ciente desses desafios, tem demonstrado hesitação em aceitar a missão. Desde que seu nome começou a ser cogitado como a melhor opção para o PT em São Paulo, o ministro da Fazenda externou sua preferência por coordenar a campanha de Lula. No entanto, a pressão do seu padrinho político aumentou nos últimos dias, levando a expectativas de um encontro entre Lula, Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin. O presidente mencionou que Alckmin teria um papel a desempenhar em São Paulo, o que poderia sugerir envolvimento do ex-tucano como apoiador de Haddad.
A Construção do Palanque e as Indefinições
Nos últimos dias, Haddad tem se mostrado cada vez mais inclinado a aceitar o desafio. Em entrevista recente, ele afirmou que tem recebido informações sobre as “vulnerabilidades” da gestão de Tarcísio e que isso poderia ser explorado nas campanhas. No entanto, ele também reconhece as dificuldades em abordar esses problemas devido à proteção que o governador possui na mídia. Haddad acredita que não houve um governo progressista em São Paulo e se colocou à disposição para discutir propostas, independentemente do papel que venha a desempenhar.
Uma das questões pendentes para Lula decidir sobre São Paulo é a composição do seu palanque no estado. Entre os nomes cotados para a chapa ao Senado estão as ministras Simone Tebet (Planejamento) e Marina Silva (Meio Ambiente), mas há preocupações sobre a possibilidade de uma chapa totalmente feminina e progressista ser vista como excessivamente radical em um estado como São Paulo. Há também discussões sobre o papel do PSB de Alckmin e possíveis alianças, incluindo a filiação de Tebet ao partido.
Por outro lado, a euforia da oposição também tem crescido com a definição das candidaturas de Tarcísio e Flávio Bolsonaro. Recentemente, houve movimentação intensa na Assembleia Legislativa, com diversos postulantes ao Senado se apresentando enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro permanece envolvido nas articulações eleitorais, apesar de estar autoexilado nos Estados Unidos.
Um Futuro Incerto
A relutância de Haddad em embarcar nessa disputa pode também ser atribuída ao temor de se tornar conhecido como um “perdedor” nas eleições. Ele teve um bom início político ao se tornar prefeito de São Paulo em 2012, mas desde então acumulou derrotas significativas. Agora, ele corre o risco de enfrentar sua quarta derrota em uma década, o que pode prejudicar suas aspirações futuras como herdeiro de Lula. Apesar das dificuldades, a prioridade parece ser minimizar os danos à campanha presidencial de Lula. Embora arriscada, essa estratégia é apoiada por Lula, e o futuro político de ambos pode depender dela.
