Aumento Significativo nos Custos Logísticos
O recente conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no Oriente Médio tem gerado sérias implicações para a logística internacional e, consequentemente, para o agronegócio brasileiro. Além da elevação no preço do petróleo, a guerra também pode resultar em um aumento expressivo nos custos de frete, que pode chegar até a 500%. Segundo José Carlos de Lima, sócio-diretor da consultoria Markestrat, as repercussões não se limitam apenas ao Estreito de Ormuz, mas também afetam outras rotas comerciais essenciais para a importação de insumos.
Produção Global Centralizada no Oriente Médio
Os países que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Omã e Bahrein, juntamente com o Irã, são responsáveis por aproximadamente 35% da produção mundial de petróleo e uma parcela significativa da oferta de gás natural. No que se refere à ureia, vital para a agricultura, essa região concentra mais de 40% das exportações globais, tendo uma vantagem competitiva devido ao custo reduzido do gás natural em comparação com a Ásia e a Europa.
Desvios nas Rotas Marítimas Aumentam Custos de Transporte
A interrupção do tráfego pelo Estreito de Ormuz, somada às ameaças à navegação no Mar Vermelho, levou grandes armadores, como Maersk, Hapag-Lloyd e CMA CGM, a redirecionar suas embarcações pelo Cabo da Boa Esperança. Lima explica que “o desvio prolonga entre 10 a 14 dias o tempo de viagem e aumenta o custo do frete marítimo entre 300% e 500%. Esse aumento se refere ao transporte, e não ao preço do fertilizante em si, mas será repassado ao valor final do produto importado”. No último ano, o Brasil importou mais de 45 milhões de toneladas de fertilizantes, sendo que a maioria da ureia provém diretamente ou indiretamente do Oriente Médio. A dependência externa de fertilizantes no país gira em torno de 80% do consumo nacional.
Consequências para o Agronegócio Brasileiro
De acordo com Lima, “aqueles que conseguiram adquirir e estocar insumos antes do aumento de preços fizeram um ótimo negócio”. Porém, a expectativa é de que o Brasil sinta os reflexos do aumento nos custos do agronegócio. O especialista observa que a situação atual deve ser vista dentro de um contexto mais amplo de reorganização das rotas comerciais globais e disputa logística na região do Oriente Médio.
Disputa Global por Rotas Comerciais e Energéticas
O conflito também pode ser analisado em relação à Belt and Road Initiative (Nova Rota da Seda) da China e ao Corredor Econômico Índia-Oriente Médio-Europa (IMEC), que conta com o apoio de Estados Unidos, Índia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Jordânia e Israel. Ambos os projetos buscam reduzir custos e tempo de transporte entre a Ásia e a Europa, diminuindo a dependência de rotas tradicionais, como o Canal de Suez. O IMEC, por exemplo, foi lançado em 2023 e promete diminuir o tempo de trânsito em cerca de 40%, enquanto a iniciativa chinesa já acumula investimentos superiores a US$ 1 trilhão desde 2013.
Riscos e Incertezas para o Setor Agrícola
A instabilidade no Oriente Médio traz incertezas tanto em relação aos prazos quanto aos custos logísticos. “O Brasil está na ponta importadora dessa cadeia. Qualquer instabilidade prolongada pode ser refletida no custo final dos fertilizantes e de outros insumos estratégicos”, destaca Lima. A concentração de reservas estratégicas de petróleo, gás natural e nitrogenados na região torna o cenário ainda mais relevante para a produção agrícola mundial, com o Irã se posicionando como um ator crítico, dada sua localização geográfica e reservas de energia. Alterações no equilíbrio de poder na região, portanto, podem impactar diretamente o fluxo de insumos essenciais para o agronegócio brasileiro.
