Operação Mederi: A Investigação que Agita Mossoró
A Polícia Federal (PF) desvendou um esquema de corrupção que envolve o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), e uma conta bancária em nome de uma estudante menor de idade. Essa conta, segundo a PF, serviu para movimentar valores relacionados a uma suposta rede de propinas e fraudes em licitações na área da Saúde. O caso, revelado pelo Estadão, coloca Bezerra como o principal alvo da Operação Mederi, que foi deflagrada no final de janeiro deste ano.
As investigações indicam que o esquema em questão movimentou cerca de R$ 13,5 milhões em pagamentos a uma empresa fornecedora de medicamentos, a qual, conforme a PF, repassava propinas a agentes públicos. Uma das táticas utilizadas para disfarçar o fluxo financeiro foi o uso da conta da menor, filha do proprietário da farmacêutica, que serviu para armazenar e distribuir os valores ilícitos. Durante um ano, essa conta movimentou aproximadamente R$ 427 mil, coincidindo com contratos estabelecidos entre o município de Serra do Mel, situado a 250 quilômetros de Natal.
Utilização do Hórus e Defesa do Prefeito
Documentos oficiais da Prefeitura de Mossoró revelam que a utilização do sistema Hórus – uma ferramenta de gestão pública – foi determinada antes do início das investigações. Em 27 de janeiro, data em que a Operação Mederi se tornou pública, Allyson Bezerra declarou que não há quaisquer elementos que o vinculem às acusações de fraudes e pagamento de propinas.
O foco da investigação é a empresa Dismed, que tem como sócio-administrador Oseas Monthalggan, apontado como o responsável por coordenar a entrega de propinas a servidores públicos. De acordo com a Polícia Federal, o esquema de desvio de recursos na Saúde e as fraudes em licitações afetaram diversos municípios do Rio Grande do Norte, incluindo Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel, José da Penha e Tibau.
Lavagem de Dinheiro e Sonegação Fiscal
A conta bancária da filha de Oseas Monthalggan e de Roberta Ferreira Praxedes da Costa — sócia da Dismed e proprietária da Drogaria Mais Saúde — foi utilizada pelos pais para atividades de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal, conforme apuração. Um relatório da PF aponta que a movimentação na conta não é compatível com a capacidade financeira da menor, levantando suspeitas de que os valores pertencem a terceiros, especialmente do pai.
Além disso, a análise das movimentações financeiras da Drogaria Mais Saúde revela que a maior parte dos recursos desviados foi direcionada à filha do casal, que recebeu R$ 427 mil entre julho de 2022 e junho de 2023, o que levanta ainda mais indícios sobre a natureza irregular das transações.
A Relação com o Município de Serra do Mel
A Drogaria Mais Saúde tinha como principal cliente o município de Serra do Mel, que entre 2024 e 2025 desembolsou cerca de R$ 1,4 milhão pela prestação de serviços da empresa. A investigação aponta que por trás dessas transferências está José Moabe Zacarias Soares (PSD), ex-vice-prefeito e considerado sócio oculto da Dismed, que está concorrendo à prefeitura em 2024. Ele teria colaborado com Oseas Monthalggan na articulação de pagamentos de propina em Mossoró e outras cidades envolvidas.
Interceptações telefônicas revelaram diálogos entre Moabe e Oseas, onde discutem o que chamam de “matemática de Mossoró” — um esquema que, segundo os investigadores, atenderia às exigências do prefeito Allyson Bezerra em relação ao repasse de propinas. Para a Polícia Federal, tanto Bezerra quanto o vice-prefeito, Marcos Bezerra (PSD), operam no comando do esquema, além de receberem percentuais definidos sobre os contratos. Marcos também foi alvo de buscas durante a Operação Mederi.
O Estadão informou que tenta contato com a defesa dos citados na investigação. A Tribuna do Norte também aguarda um posicionamento da assessoria da Prefeitura de Mossoró.
Práticas Ilícitas e Alto Escalão Municipal
A decisão que autorizou as diligências foi proferida pelo desembargador Rogério Fialho Moreira, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF5), que destacou informações da Controladoria-Geral da União (CGU). A CGU apontou que as práticas ilícitas que estão sendo investigadas foram conduzidas por figuras de alto escalão das administrações municipais, o que levanta questões sobre a integridade da gestão pública na região.
