Investigação e Resistência do Prefeito
No final de janeiro, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União), tornou-se alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) em uma investigação que apura um suposto esquema de fraudes em licitações no Rio Grande do Norte. Durante a Operação Mederi, Bezerra se negou a fornecer a senha de seu celular e de um computador que foram apreendidos. De acordo com as autoridades, o prefeito é suspeito de receber 15% do valor de cada nota fiscal emitida pela empresa Dismed, que possui contratos suspeitos de fornecimento de medicamentos ao município, somando cerca de R$ 13,5 milhões entre 2021 e 2025.
A defesa de Allyson Bezerra optou por não se manifestar publicamente sobre a investigação. No dia em que a Operação Mederi foi deflagrada, 27 de janeiro, os advogados do prefeito afirmaram que “não há qualquer fato que o vincule pessoalmente” às fraudes e ao recebimento de propinas.
Apreensões e Buscas pela PF
O aparelho celular do prefeito, um iPhone 17 Pro Max azul, foi requisitado durante uma ação da PF em Mossoró. Em relatório, os agentes relataram que Bezerra não quis disponibilizar o acesso ao dispositivo, embora a PF possua ferramentas que permitem a extração de dados, mesmo de arquivos remotos. Além do celular, a equipe policial encontrou um notebook na mochila do prefeito, que também teve o acesso negado, além de dois HDs externos e um pendrive.
Os agentes federais também realizaram uma busca no apartamento de Bezerra em Natal, especificamente no bairro Ponta Negra, a partir das 8h daquele dia, mas o prefeito não estava presente. O relatório a que o Estadão teve acesso menciona que foram encontrados diversos itens pessoais e sinais de que o local havia sido recentemente ocupado.
Itens Apreendidos e Suspeitas de Reformas Recentes
No imóvel, os investigadores localizaram um cofre e uma gaveta trancada que foram arrombados. O cofre, retirado de seu espaço, foi inspecionado, mas estava vazio, e a PF declarou que “nada foi encontrado de interesse para a investigação”. Além disso, no escritório do apartamento, a equipe apreendeu outro celular, da marca Positivo, e um cartão de memória, juntamente com anotações, planilhas e documentos, incluindo um comprovante de cartão de crédito datado de 23 de janeiro de 2026, no valor de R$ 1.349,56.
O delegado Júlio Sombra, responsável pelas buscas, observou que o imóvel aparentemente passou por uma reforma recente. Um chapéu de vaqueiro, que simboliza a marca política de Bezerra, foi encontrado na estante. O prefeito foi visto usando esse acessório durante o evento de lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Rio Grande do Norte, confirmando sua intenção de renunciar ao cargo de prefeito para concorrer ao Executivo estadual em março.
Escuta Ambiental e Suspeitas de Corrupção
A Polícia Federal destaca que a referência ao pagamento de 15% ao prefeito de Mossoró foi capturada em uma escuta ambiental nas instalações da Dismed. O empresário Oseas Monthalggan discutiu como os valores seriam divididos, afirmando: “Quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento”. Esse trecho da conversa sugere que “o homem” mencionado se refere a Allyson Bezerra, indicando uma identificação indireta.
Além das referências diretas ao recebimento de valores, a PF também notou indícios de que o prefeito tinha consciência da ilegalidade de suas ações. Em outra conversa, Oseas comentou sobre os cuidados a serem tomados por funcionários em relação a possíveis acusações, afirmando: “o problema porque é o seguinte: os cara… se eu fosse prefeito… ah, esse prefeito é ladrão”. Tal declaração manifesta a cautela que Bezerra aparenta adotar em relação às propinas recebidas.
Nota da Defesa e Esclarecimentos sobre a Investigação
Após o início da Operação Mederi, a defesa de Allyson Bezerra emitiu uma nota pública, onde negou qualquer ligação com o esquema de corrupção. Segundo o documento, a investigação está centrada em contratos entre municípios do Rio Grande do Norte e empresas farmacêuticas, não podendo ser confundida com a atuação pessoal do prefeito.
A defesa ainda destaca que não há provas que vinculem Bezerra aos crimes investigados, e que o cumprimento da busca e apreensão foi uma medida cautelar, sem qualquer juízo de culpa. O prefeito, que não foi afastado de suas funções, se comprometeu a colaborar com as autoridades, respeitando as instituições e o devido processo legal. Desde dezembro de 2023, Allyson Bezerra instituiu um decreto que torna obrigatória a utilização do Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica – Hórus, como parte de um esforço para fortalecer a transparência e o controle sobre o fornecimento de medicamentos na prefeitura.
Confiantes na apuração, a defesa do prefeito reafirma que Allyson Bezerra continua exercendo suas funções normalmente, focando na gestão pública e no interesse da população de Mossoró.
