Operação Mederi e as Revelações sobre o Esquema de Corrupção
A Polícia Federal (PF) desvelou um suposto esquema de corrupção que estaria operando em cinco cidades do Rio Grande do Norte, onde o pagamento de propinas e a coordenação de saques em dinheiro eram referidos como ‘no isopor’. A operação, batizada de Mederi, foi deflagrada nesta terça-feira, dia 27, e apura desvios que podem atingir a cifra de R$ 13 milhões dos cofres públicos.
Durante a ação, a PF realizou buscas em 35 endereços e confirmou a existência de maços de dinheiro escondidos em um isopor, corroborando as suspeitas levantadas ao longo da investigação. Os municípios afetados incluem Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel e José da Penha, e o esquema é atribuído a duas empresas farmacêuticas: Dismed e Drogaria Mais Saúde.
Entre os alvos das investigações, destacam-se os prefeitos de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil); Paraú, João Evaristo Peixoto (Progressistas); e São Miguel, Leandro Michel do Rêgo Lima (União Brasil). Também foram alvos, o ex-vice-prefeito de Serra do Mel, José Moabe Zacarias Soares (PSD), e o atual vice de Mossoró, Marcos Bezerra (PSD).
O prefeito de Mossoró se manifestou em nota, afirmando que colaborou de maneira integral com a operação, permitindo acesso às informações solicitadas.
Diálogos Reveladores e o Papel de Roberta Praxedes
A empresária Roberta Ferreira Praxedes Costa, sócia da Drogaria Mais Saúde, foi identificada como uma das principais operadoras do esquema, que recorria à artimanha do ‘dinheiro no isopor’. Em uma conversa gravada pela PF, Roberta dialoga com Oseas Monthalggan, seu marido e sócio da Dismed, sobre a movimentação de valores. A empresária menciona a intenção de sacar R$ 43 mil e a necessidade de coordenar saques para evitar a detecção de transações financeiras suspeitas.
“É melhor tá no banco do que no isopor. No isopor não rende nada, viu?”, diz Roberta, demonstrando a preocupação com a forma como os valores eram mantidos. Para a PF, as referências a saques fracionados e ao armazenamento de dinheiro ‘no isopor’ indicam uma tentativa de evitar que as transações fossem detectadas por sistemas de controle financeiro.
Decisão Judicial e Implicações Legais
A operação teve autorização judicial do desembargador Rogério Fialho Moreira, do Tribunal Regional Federal da 5.ª Região (TRF5), que destacou que as práticas ilícitas teriam sido orquestradas por altos escalões das administrações municipais. Em sua decisão, o magistrado assinalou que as empresas investigadas, Dismed e Drogaria Mais Saúde, recebiam a maior parte de suas receitas de recursos públicos provenientes de fundos municipais de saúde, que são dotados de verbas do Sistema Único de Saúde (SUS).
Os envolvidos na operação podem ser responsabilizados por crimes relacionados a desvios de recursos públicos e fraudes em contratações administrativas. A defesa do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, ressalta que o cumprimento da ordem de busca não implica em culpa, uma vez que a investigação é baseada em diálogos de terceiros. O prefeito reforçou sua disposição em colaborar com as autoridades e expressou confiança na apuração.
Além disso, como parte de medidas preventivas, Bezerra implementou em dezembro de 2023 o Decreto nº 6.994/2023, que estabelece a obrigatoriedade do uso do Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica – Hórus, reforçando o controle e a transparência na gestão dos medicamentos no município.
O caso é uma ilustração clara da necessidade de vigilância contínua sobre a administração pública e das práticas de governança, especialmente em áreas sensíveis como a saúde, onde a integridade das verbas é crucial para o bem-estar da população.
