Revisão sobre a circulação oceânica que regula o clima
Um estudo publicado na revista “Nature Geoscience” nesta segunda-feira (3) traz novas evidências sobre a Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), um sistema fundamental que influencia o clima global. Pesquisadores dos Países Baixos, Estados Unidos, China e Reino Unido analisaram o funcionamento dessa corrente, que age como uma enorme esteira transportadora, levando águas quentes pela superfície do oceano rumo ao norte e devolvendo águas frias e densas pelas profundezas.
Essa circulação é vital para manter temperaturas, padrões de chuva e outras condições climáticas no Atlântico Norte, na Europa e em várias partes do mundo. Por décadas, cientistas consideraram que a chamada fuga das Agulhas — uma corrente que transporta água quente e salgada do Oceano Índico para o Atlântico, localizada ao sul da África — era essencial para alimentar a AMOC. A teoria tradicional indicava que o sal transportado ajudava a densificar a água no Atlântico Norte, favorecendo seu afundamento e a continuidade da circulação profunda.
Descobertas que desafiam a explicação tradicional
O novo estudo, contudo, apresenta um cenário diferente para o passado distante do planeta. Mesmo quando a entrada de água salgada do Índico diminuiu drasticamente, a formação de águas profundas no Atlântico Norte aumentou, assim como a intensidade da circulação oceânica. “A AMOC pode permanecer forte mesmo quando a fuga das Agulhas enfraquece”, destaca Suning Hou, principal autora da pesquisa.
A equipe investigou o período entre 3,6 milhões e 2,6 milhões de anos atrás, no fim do Plioceno, que abrangeu fases glaciais e períodos mais quentes que o clima atual. Para entender o comportamento dos oceanos nesse intervalo, foram analisadas amostras de sedimentos retirados do Planalto das Agulhas, cerca de 500 quilômetros ao sul da África do Sul.
Esses sedimentos funcionam como um arquivo natural, preservando restos de micro-organismos e compostos orgânicos que revelam as condições oceânicas de milhões de anos atrás. A pesquisa focou em fósseis microscópicos de dinoflagelados e outros indicadores que permitiram mapear variações de temperatura e o deslocamento da faixa que separa águas subtropicais das regiões frias do Oceano Austral.
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Fonte: feirinhadesantana.com.br
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Fonte: amapainforma.com.br
Como a circulação oceânica mudou no passado remoto
Os registros indicam que, a partir de cerca de 3,4 milhões de anos atrás, essa faixa se deslocou para o norte, fazendo com que a região das Agulhas esfriasse aproximadamente 3°C e adquirisse características próximas das áreas subpolares. Isso sinalizou uma redução acentuada na entrada de água quente e salgada do Índico para o Atlântico, chegando até a quase cessar.
Esse resultado surpreendeu porque, segundo a explicação mais aceita, a diminuição no transporte de sal deveria reduzir a densidade da água no Atlântico Norte, dificultar seu afundamento e enfraquecer a AMOC. No entanto, os dados geológicos e as simulações climáticas apontaram o contrário: apesar da corrente quente ter avançado menos para o norte durante o período glacial, a formação de águas profundas no Atlântico Norte aumentou, e a circulação intensificou-se em latitudes mais baixas.
Reorganização ampla e impactos no entendimento da AMOC
Para validar que essa mudança não foi isolada, os cientistas compararam os sedimentos do sul da África com registros do Golfo do México, Caribe e outras regiões do Atlântico, além de confrontar os dados com simulações climáticas do período. O resultado indicou uma reorganização ampla das camadas de água no Atlântico, não apenas alterações locais.
Essa descoberta põe em dúvida a ideia de que a fuga das Agulhas controla diretamente a intensidade da AMOC apenas pelo transporte de sal. Os pesquisadores apontam que o funcionamento da circulação depende também de processos que ocorrem no próprio Atlântico Norte, onde a água perde calor, torna-se mais densa e afunda.
A importância relativa de cada mecanismo varia conforme o clima, a distribuição do gelo e a configuração dos oceanos ao longo do tempo.
O que o estudo significa para o futuro da circulação oceânica?
O estudo não altera diretamente as previsões para a AMOC atual, pois o período analisado teve geografia, quantidade de gelo e condições climáticas diferentes das de hoje. Portanto, não é possível afirmar como a AMOC responderá às mudanças climáticas nas próximas décadas com base nesses dados.
Por exemplo, uma mudança futura na posição das correntes do Oceano Austral poderia aumentar a entrada de água salgada no Atlântico, enquanto o derretimento do gelo no Ártico e Groenlândia adiciona água doce ao oceano, influenciando a circulação de forma distinta do passado estudado.
Assim, a principal conclusão é que a ligação entre as correntes oceânicas pode variar significativamente ao longo da história da Terra, dependendo das condições climáticas e geográficas em cada época.
