Repasses Significativos da Gestão Municipal
A Prefeitura de Mossoró desembolsou a impressionante quantia de R$ 14,2 milhões a empresas que estão sob investigação da Polícia Federal na Operação Mederi, entre os anos de 2021 a 2025. A investigação, que envolve a análise de indícios de irregularidades em contratos da área da saúde em cinco municípios do Rio Grande do Norte, aponta que Mossoró é a principal fonte de recursos direcionados à empresa Dismed durante o período em questão.
Dados extraídos do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN) indicam que, dos R$ 14,2 milhões pagos, R$ 13,6 milhões foram destinados à Dismed, sendo que a maior parte dos repasses ocorreu em 2024, quando o total chegou a quase R$ 6 milhões. O município também se destacou por ter enviado R$ 684,1 mil à Drogaria Mais Saúde em 2025, tornando-se o maior pagador da empresa nesse ano.
Um relatório recente revelou que o dano mínimo causado aos cofres públicos pelas supostas fraudes nas cinco prefeituras investigadas é estimado em R$ 13,3 milhões, quantia que já foi bloqueada pela Justiça. Desses valores, R$ 9,5 milhões foram cautelarmente retidos de Mossoró.
Crescimento Progressivo dos Repasses
Os dados mostram um aumento significativo nos repasses à Dismed ao longo dos anos. Em 2021, o montante foi de apenas R$ 143.895,00, mas esse valor saltou para R$ 1.274.671,80 em 2022, e em 2023, chegou a R$ 3.401.155,73. O ápice foi observado em 2024, com pagamentos que totalizaram R$ 5.864.704,79. Mesmo em 2025, antes do término do exercício, já haviam sido feitos repasses de R$ 2.920.640,16.
Segundo informações colhidas pela reportagem, a magnitude dos recursos públicos envolvidos, somada ao volume de saques em espécie realizados pelas empresas, gerou suspeitas sobre a legalidade das relações mantidas entre a administração municipal e as fornecedoras.
Elucidação de Suspeitas e Conexões Políticas
A investigação também levantou preocupações em relação à proximidade política de Oseas Monthalggan, sócio da Dismed, com o prefeito Allyson Bezerra. Um trecho da investigação menciona postagens de Monthalggan em redes sociais, onde ele manifesta apoio ao prefeito, descrevendo-o como um dos melhores do Brasil. O prefeito, por sua vez, respondeu à mensagem com gratidão.
A decisão judicial que autoriza a investigação observa que o montante de recursos, aliado a outras evidências, como pagamentos por produtos não entregues e a aquisição de medicamentos em quantidades incompatíveis com o consumo, justifica a continuidade das apurações.
A Matemática de Mossoró
A decisão judicial menciona um esquema denominado “Matemática de Mossoró”, que teria sido identificado nas investigações. Esse termo refere-se a uma suposta reserva de valores ilícitos oriundos dos contratos de medicamentos. De acordo com diálogos interceptados, o esquema operava com uma margem de 25% de retorno sobre o faturamento, com partes desse retorno supostamente destinadas a políticos locais, entre eles, o próprio prefeito.
Os investigadores explicam que a operação se baseava em uma estrutura de confiança dentro da administração pública, e a continuidade do esquema dependeria da participação ou omissão de servidores públicos. A defesa de Allyson Bezerra, no entanto, afirma que não há provas diretas que o vinculem às irregularidades e que o processo é baseado em diálogos que não o envolvem diretamente.
Colaboração com as Autoridades
O prefeito ressaltou que está colaborando com as investigações e que, em 2023, implementou um decreto municipal exigindo que todos os medicamentos distribuídos pela Prefeitura de Mossoró fossem controlados pelo Sistema Nacional de Gestão da Assistência Farmacêutica (Hórus), uma plataforma do governo federal para rastreamento de insumos. As investigações da Operação Mederi continuam em andamento, com foco na apuração de contratos firmados por prefeituras do estado com fornecedores de medicamentos e insumos de saúde.
