Operação Mederi e as Ações da PF
A Polícia Federal (PF) deu um passo significativo na investigação de fraudes envolvendo contratos de fornecimento de insumos para a saúde pública no Rio Grande do Norte. Na terça-feira (27), foram cumpridos 35 mandados de busca e apreensão em diversos municípios do estado, com a apreensão de 33 celulares, 34 dispositivos eletrônicos, quatro veículos e 117 documentos. Os materiais coletados passarão por análise detalhada durante as investigações. A operação, intitulada Mederi, também resultou na apreensão de R$ 251 mil em espécie, distribuídos em sete endereços da operação.
Prefeituras Sob Suspeita
De acordo com as apurações do Estadão e da TV Globo, as prefeituras investigadas são: Mossoró, Serra do Mel, Tibau, Paraú, São Miguel e José da Penha. Documentos obtidos revelam conversas interceptadas pela Polícia Federal que indicam um suposto esquema de desvio de recursos públicos e fraudes em processos licitatórios na área da saúde em Mossoró. O prefeito Allyson Bezerra, do União Brasil, é um dos investigados, mas nega quaisquer acusações de irregularidades.
Contratos Suspeitos e Montantes Envolvidos
A decisão judicial que autorizou a operação revela que a Prefeitura de Mossoró pagou, entre 2021 e 2025, mais de R$ 13,5 milhões a uma das empresas sob investigação, tornando-a a principal destinatária de recursos públicos do município. O desembargador responsável pela decisão apontou que o volume de dinheiro envolvido e as quantias sacadas pelas empresas levantam sérias suspeitas sobre a legalidade das relações com a administração municipal.
O magistrado ainda destacou a proximidade política entre Allyson Bezerra e um dos sócios da empresa suspeita, evidenciada por fotos compartilhadas nas redes sociais.
A Matemática de Mossoró e o Esquema de Propinas
Transcrições de conversas entre empresários revelam o que eles denominam de “matemática de Mossoró”. Durante uma dessas conversas, eles mencionam um contrato de R$ 400 mil, do qual apenas R$ 200 mil seriam efetivamente entregues. Dos R$ 200 mil não entregues, R$ 100 mil estariam destinados a propinas, sendo R$ 60 mil para o prefeito Allyson Bezerra. Essa prática, se confirmada, configuraria um esquema de corrupção sistemático.
Estrutura do Esquema e as Ações da PF
A investigação indica que tanto o prefeito quanto o vice-prefeito de Mossoró, Marcos Bezerra (PSD), estariam na liderança do esquema, recebendo percentuais pré-definidos de propina em contratos com a empresa Dismed, fornecedora de medicamentos. Ambos foram alvos de buscas e apreensões na Operação Mederi.
Conforme os investigadores, o esquema se divide em três níveis: no topo, os agentes políticos; no intermediário, gestores administrativos que garantiriam a execução dos contratos; e, por fim, os fiscais e gestores de contrato que viabilizariam as entregas. Os empresários, conforme a investigação, seriam responsáveis pela operacionalização das fraudes no setor privado.
Preocupações com a Transparência e a Justiça
O desembargador Rogério Fialho Moreira, que autorizou as diligências, enfatizou a gravidade das práticas ilícitas, que teriam sido lideradas pelo alto escalão das administrações municipais. Segundo a Polícia Federal, as escutas telefônicas disponíveis revelam claramente o papel de cada um no esquema de corrupção.
Marcos Medeiros, atual vice-prefeito e ex-secretário do Fundo Municipal de Saúde, também figura entre os investigados. O esquema se mostra complexo e abrange várias esferas administrativas e empresariais, levantando sérias preocupações sobre a integridade na gestão pública da região.
Desdobramentos da Investigação
A PF intensificou as investigações, que abrangem não apenas Mossoró, mas diversas cidades do estado. O foco é entender como as empresas atuavam em conjunto com as administrações municipais para fraudar contratos e desviar recursos públicos. Os mandados de busca foram cumpridos em localidades como Natal, Upanema, Pau dos Ferros e outras. Entre os citados nas investigações, estão ainda os prefeitos de São Miguel e Paraú, além de secretários de José da Penha.
As irregularidades incluem não entrega de materiais, fornecimento inadequado e cobrança de preços superfaturados. A operação Mederi promete desdobramentos importantes para a transparência e a responsabilidade na gestão pública do estado.
