Discussão sobre Depósitos Compulsórios
Nos últimos dias, o sistema financeiro brasileiro retomou um debate técnico que pode ter consequências diretas no agronegócio. A pauta gira em torno da avaliação de novos mecanismos para reforçar a liquidez, incluindo a utilização de depósitos compulsórios. Esses depósitos são valores que os bancos devem manter, imobilizados no Banco Central, e que não podem ser utilizados em operações de crédito. Essa movimentação ocorre em um cenário de alta volatilidade no crédito e pode impactar os recursos destinados ao crédito rural, essencial para a produção agrícola e pecuária do Brasil.
Preocupações com o Aumento da Competitividade
No cerne da discussão, uma das grandes preocupações é que ajustes que aumentem a “competição” por recursos oriundos de depósitos à vista possam, no final, pressionar as linhas de crédito voltadas para o setor rural. Isso é especialmente relevante para a agricultura familiar e pequenos produtores, que dependem fortemente de financiamentos voltados para custeio e comercialização.
Isan Rezende, presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), destaca que qualquer debate sobre o uso de compulsórios deve esclarecer quem arcará com os custos decorrentes dessas mudanças. “Os produtores rurais já enfrentam juros altos, margens apertadas e crescentes riscos climáticos. Não é razoável que o agronegócio seja visto como uma fonte automática de financiamento para corrigir distorções do sistema financeiro”, alertou.
Cenário e Repercussões para o Crédito Rural
Rezende enfatiza que o crédito rural não deve ser encarado como um privilégio, mas sim como uma ferramenta fundamental de política pública para assegurar produção, abastecimento e segurança alimentar. Segundo ele, alterações na base de recursos sem um diálogo claro resultam em restrições de crédito para quem efetivamente produz e sustenta a economia, afetando especialmente os médios e pequenos produtores.
A situação exige um posicionamento firme do Congresso Nacional, sobretudo da Frente Parlamentar da Agropecuária. “A FPA deve monitorar de perto qualquer iniciativa que possa diminuir a oferta ou aumentar o custo do crédito rural. Esse não é um assunto técnico restrito a bancos, mas uma decisão que impacta diretamente o campo, o emprego e a inflação dos alimentos”, acrescentou.
Estabilidade e Previsibilidade Necessárias
Rezende também alertou que o agro brasileiro não pode ser pego de surpresa com mudanças que afetem o financiamento da próxima safra. “É crucial que os parlamentares assumam um papel ativo, exijam esclarecimentos e garantam que nenhuma solução financeira seja estruturada às custas do produtor rural. O País precisa de estabilidade, previsibilidade e crédito para produzir, não de incertezas adicionais”, completou.
Essa reflexão técnica sobre liquidez no crédito rural ocorre em um momento em que, apesar do volume de crédito continuar elevado, os produtores enfrentam desafios como margens apertadas e a concessão seletiva de crédito pelas instituições financeiras. Na safra 2024/25, os desembolsos no crédito rural ultrapassaram R$ 330 bilhões, evidenciando a importância desses recursos para a manutenção de investimentos no campo.
Desafios e Propostas de Salvaguardas
Especialistas em finanças do agronegócio observam que, em um contexto de competição acirrada por recursos financeiros, ajustes nas normas relativas a depósitos compulsórios devem ser acompanhados por salvaguardas claras. O objetivo é evitar que a restrição de liquidez no crédito rural, mesmo que de forma indireta, impacte mais severamente os produtores com menor acesso a alternativas de financiamento.
O crédito rural se configura como um dos pilares fundamentais para a sustentação da produção agrícola e pecuária no Brasil, sendo utilizado para custeio, investimento, comercialização e industrialização. Estruturas de recursos, como depósitos à vista e letras de crédito do agronegócio, fazem parte desse ecossistema financeiro que suporta o setor.
Dados Setoriais e Inadimplência
Levantamentos recentes apontam que a inadimplência no meio rural atingiu 8,3% no terceiro trimestre de 2025, refletindo uma concentração de dívidas com instituições financeiras e destacando fragilidades financeiras entre as populações rurais de faixas etárias intermediárias. Diante desse cenário desafiador, a discussão sobre o uso de recursos compulsórios se torna ainda mais crítica, pois pode influenciar decisões regulatórias e normativas nos próximos meses.
Para o setor agropecuário, o desafio está em assegurar que eventuais ajustes no sistema financeiro fortifiquem a estabilidade sem comprometer a fluidez e a sustentabilidade do crédito rural, especialmente onde se encontram os produtores mais vulneráveis e dependentes de financiamentos.
