Consequências Indiretas para o Agronegócio
A recente operação militar dos Estados Unidos na Venezuela, que culminou na captura do presidente Nicolás Maduro no início de janeiro de 2026, trouxe à tona discussões entre especialistas brasileiros a respeito dos possíveis efeitos indiretos que crises geopolíticas podem ocasionar na cadeia do agronegócio. Apesar da ausência de um impacto bilateral direto significativo, o evento pode ter repercussões em custos, logística e requisitos regulatórios para o setor.
Segundo análises, o agronegócio nacional poderá sentir os reflexos principalmente em áreas como energia, fretes e gestão de riscos, impactando diretamente cadeias como a de proteína animal e outras commodities agrícolas que o Brasil exporta. André Aidar, sócio e head de Direito do Agronegócio do escritório Lara Martins Advogados, afirma que a reconfiguração das relações entre os Estados Unidos e a Venezuela pode originar efeitos econômicos indiretos substanciais.
“Mudanças nos fluxos de energia, commodities e insumos estratégicos impactam os preços internacionais, a logística e a competitividade. Tensões prolongadas podem reforçar o Brasil como fornecedor confiável de alimentos, mas também elevar a exposição à volatilidade cambial e aos custos de frete, combustíveis e fertilizantes,” explica Aidar.
O especialista ressalta que este cenário atual exige uma atenção mais rigorosa à gestão de riscos dentro da cadeia, com ênfase na diversificação de mercados, revisão de contratos e um monitoramento contínuo das sanções e barreiras comerciais, que podem mudar rapidamente em contextos de instabilidade internacional.
Desafios Logísticos e de Compliance
Em sintonia com essa análise, o advogado Adhemar Michelin Filho, sócio da Michelin Sociedade de Advogados, destaca que as principais implicações para o agronegócio brasileiro tendem a se manifestar através de impactos nos custos relacionados à logística e à energia. “Ruídos geopolíticos costumam aumentar a volatilidade do petróleo, pressionando os preços de combustíveis e fretes. Esta pressão se reflete diretamente nas cadeias de proteína animal, onde fatores como transporte, refrigeração e distribuição são significativos,” explica Michelin.
Além disso, o advogado chama a atenção para um endurecimento nas exigências relacionadas à conformidade e rastreabilidade nas cadeias internacionais. Segundo ele, empresas brasileiras que operam no comércio global podem enfrentar um rigor maior em procedimentos de due diligence e verificação de contrapartes, impostos por bancos, seguradoras e parceiros comerciais, o que pode afetar prazos, contratos e acesso a crédito.
Integração de Riscos Geopolíticos no Planejamento
Os especialistas concordam que esse panorama ressalta a importância de integrar riscos geopolíticos no planejamento estratégico das empresas do agronegócio. Isso deve incluir uma gestão de custos eficaz, contratos resilientes, um planejamento logístico adequado e o fortalecimento de práticas de conformidade, com o objetivo de preservar margens, assegurar embarques e manter a competitividade em um ambiente global cada vez mais volátil.
A situação atual exige uma análise atenta e a adoção de estratégias que possibilitem ao agronegócio brasileiro não apenas sobreviver, mas também prosperar, mesmo diante de desafios externos. Com um foco renovado na gestão de riscos e na adaptação às novas exigências do mercado global, o setor pode navegar com mais segurança em tempos incertos.
