O desafio real do financiamento climático
As conferências do clima ganham destaque pelo que anunciam, mas o maior desafio aparece quando a agenda oficial termina: transformar decisões em mudanças práticas. Desde minha participação na COP30, em Belém, tenho acompanhado esse caminho que conecta promessas diplomáticas à realidade.
Nas últimas semanas, estive atenta à 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima da ONU (SB64), realizada em Bonn, Alemanha, entre 8 e 18 de junho. Apesar de pouco conhecida do público em geral, essa reunião técnica é fundamental para dar continuidade e concretude às decisões das Conferências das Partes. Ali, o debate sobre financiamento climático com perspectiva de gênero se destacou de forma reveladora.
Mulheres além da vulnerabilidade: lideranças da transformação
O foco internacional ainda costuma ver as mulheres principalmente como grupo vulnerável aos impactos do clima. Esse diagnóstico é válido, mas insuficiente. Em milhares de territórios, elas não são apenas beneficiárias, mas líderes da transição ecológica.
Mulheres comandam negócios socioambientais, cooperativas, empreendimentos ligados à sociobiodiversidade, organizações comunitárias, iniciativas de agricultura sustentável, além de desenvolver pesquisas e tecnologias sociais. Elas criam soluções que conciliam conservação ambiental, geração de renda e desenvolvimento local.
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O desafio não é inseri-las na agenda climática — elas já estão presentes. A dificuldade está em fazer com que órgãos de financiamento reconheçam essas mulheres como protagonistas econômicas da transformação ambiental.
Dados da SB64 e o paradoxo do financiamento
Os números apresentados na SB64 expõem essa contradição. A Assistência Oficial ao Desenvolvimento para iniciativas ligadas à igualdade de gênero cresceu, mas os investimentos com foco principal na promoção dessa igualdade permanecem parados. No setor privado, a situação é ainda mais preocupante: 78% das operações de financiamento climático não incorporam perspectiva de gênero.
O Fundo Verde para o Clima aponta que 86% dos seus projetos beneficiam mulheres, porém só 12% promovem mudanças estruturais. Tara Daniel, da Women and Gender Constituency, resumiu bem esse paradoxo: “Temos confundido processo com progresso.”
O que falta para financiar a verdadeira transformação?
Cumprir protocolos e criar indicadores não basta se as estruturas que definem acesso a crédito, investimento e inovação permanecem intactas. O próprio Fundo Verde para o Clima admite que ainda não há consenso sobre o que caracteriza um investimento transformador em termos de gênero. Se não definirmos a transformação, não conseguiremos financiá-la.
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Enquanto isso, mulheres indígenas, produtoras rurais, gestoras de cooperativas e empreendedoras do Brasil e do Sul Global enfrentam dificuldades para acessar grandes fundos internacionais. É um paradoxo: quem oferece respostas concretas à adaptação climática e fortalece economias locais está longe dos mecanismos financeiros criados para acelerar essa transição.
Empreendimentos socioambientais como estratégia de desenvolvimento
Negócios liderados por mulheres não são iniciativas periféricas ou assistenciais. São empreendimentos que movimentam economias locais, valorizam a sociobiodiversidade, fortalecem cadeias produtivas sustentáveis, promovem inovação e aumentam a capacidade de adaptação dos territórios.
Financiá-los não é uma política compensatória, mas uma estratégia essencial para o desenvolvimento sustentável. O verdadeiro legado da COP30 será a habilidade de redesenhar a arquitetura do financiamento climático.
É urgente rever critérios que definem acesso aos recursos e reconhecer negócios socioambientais liderados por mulheres como ativos estratégicos para a transição ecológica. O financiamento internacional precisa deixar de tratá-las como destinatárias e passar a vê-las como protagonistas econômicas do futuro que queremos construir.
