A Nova Era das Culturas para Biocombustíveis
O agronegócio brasileiro, tradicionalmente dominado pela soja e cana-de-açúcar, está passando por uma transformação notável. Com a crescente demanda por fontes de energia renovável, produtores estão diversificando suas plantações para incluir novas matérias-primas, como a canola e a macaúba, na produção de etanol e biodiesel. O agricultor Amauri Weber, com uma propriedade de 700 hectares nos municípios de Palotina e Terra Roxa, no Paraná, exemplifica essa tendência. Ele obteve uma produtividade de 83,5 sacas de soja por hectare na última safra, colhendo frutos de práticas de rotação de culturas e manejo tecnológico. A soja, além de alimentar animais, também é uma importante fonte de óleo para biodiesel, com sua cooperativa, C. Vale, produzindo 199,3 mil toneladas do insumo no último ano.
A maior parte desse óleo é destinada ao Grupo Potencial, que opera uma das maiores fábricas de biodiesel do Brasil, localizada em Lapa, na região metropolitana de Curitiba. Essa empresa anunciou um plano robusto de investimento, com R$ 6 bilhões até 2030, para transformar sua unidade em um complexo de agroenergia, que incluirá etanol e biogás. A expectativa é que a produção de biodiesel a partir da soja alcance 1,7 bilhão de litros anualmente.
“A soja continua sendo a principal fonte de biodiesel devido à sua estrutura mecanizada e ao histórico de pesquisa que a apoia”, afirma César de Castro, pesquisador da Embrapa Soja, ressaltando que a soja representa 73,3% do biodiesel produzido no Brasil. O sucesso da soja se deve não apenas ao seu volume, mas também à sua eficiência em gerar farelo e óleo, que atuam como subprodutos altamente valorizados.
O Potencial das Novas Culturas
Porém, a diversificação é essencial. Bruno Laviola, chefe-adjunto da Embrapa Agroenergia, aponta que a canola e a macaúba oferecem alternativas viáveis. A canola, com um teor de óleo que varia entre 38% a 42%, e a macaúba, que pode chegar a impressionantes 60%, estão sendo avaliadas para uso em áreas que não permitem mecanização. “Apesar da soja assumir uma vasta área de cultivo, é fundamental explorar novas opções para garantir a sustentabilidade do setor”, destaca Laviola.
Atualmente, a pecuária também contribui significativamente para a produção de biodiesel, com 8,3% de participação. Em 2025, a combinação de gorduras bovinas e suínas poderá resultar em 827,5 milhões de litros do combustível, oferecendo uma alternativa com baixo custo e menor impacto ambiental.
Crescimento do Etanol e Novos Desafios
O etanol, por sua vez, já está presente no Brasil há meio século e, em uma década, sua produção cresceu 20%, somando quase 36 milhões de metros cúbicos em 2025. Há, atualmente, 45 projetos em andamento para novas instalações de produção, que devem aumentar a capacidade de etanol anidro em 12% e a do hidratado em 7,8% até 2026. Embora a cana-de-açúcar continue a ser a principal matéria-prima, o milho está emergindo como um competidor significativo, representando cerca de 30% do etanol produzido no último ano.
José Guilherme Nogueira, CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), argumenta que é essencial promover a equidade regulatória entre as diferentes rotas de produção para evitar que um tipo de cultura receba tratamento privilegiado em relação a outras. A industrialização do milho para etanol é vista por muitos, incluindo Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja-MT, como uma tendência irreversível. “O milho gera proteína de alta qualidade, e o combustível aumenta o valor do grão, trazendo benefícios econômicos diretos”, afirma Beber, que já comercializa sua produção com a Inpasa, uma empresa paraguaia que investe fortemente em etanol no Brasil.
O sorgo granífero, que já representa 5% da produção de etanol da Inpasa, é outra cultura que está ganhando destaque, devido à sua adaptação a climas irregulares e solos arenosos. “A capacidade agrícola do Brasil é imensa, e a diversificação das fontes de energia renovável é um reflexo disso”, conclui Gustavo Mariano, vice-presidente de trading da Inpasa.
