Desigualdade nos Cachês: Um Cenário Alarmante
O ano de 2025 foi marcado por investimentos expressivos no setor de entretenimento do Rio Grande do Norte. Dados do Painel Festejos do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) indicam que mais de R$ 192 milhões foram gastos em contratações artísticas pelos municípios potiguares. Contudo, a realidade para os artistas locais é bem diferente: apesar de ocuparem cerca de 80% das programações, eles ficam com apenas 30% do total dos orçamentos destinados a cachês.
A análise, que abrange 2.363 contratos registrados, revela uma estrutura de “pirâmide invertida”, onde uma minoria de artistas nacionais concentra a maior parte dos recursos. Para grupos de cultura popular e trios de sanfoneiros, a situação é ainda mais crítica, já que eles recebem menos de 10% do total, conforme apontado pelo TCE-RN. Para exemplificar a discrepância, o maior cachê pago a um artista local foi de R$ 250 mil à banda Grafith durante o carnaval de Natal, enquanto muitos artistas recebem entre R$ 1.500 e R$ 2.500 por suas apresentações.
Ranking dos Maiores Cachês de Artistas Potiguares em 2025
O cenário se torna ainda mais evidente ao observar os maiores cachês individuais pagos a artistas locais. Confira a lista:
- 1º Banda Grafith – R$ 250.000 (Natal – Carnaval – Polo Ponta Negra)
- 2º Banda Grafith – R$ 220.000 (Macau – Carnaval / Trio Elétrico)
- 3º Banda Grafith – R$ 200.000 (Mossoró – Pingo da Mei Dia)
- 4º Cavaleiros do Forró – R$ 200.000 (Natal – São João)
- 5º Cavaleiros do Forró – R$ 180.000 (Mossoró – Cidade Junina)
- 6º Raí Saia Rodada – R$ 180.000 (Assú – São João)
- 7º Ferro na Boneca – R$ 150.000 (Currais Novos – Festa de Sant’Ana)
- 8º Circuito Musical – R$ 120.000 (Caicó – Carnaval)
- 9º Banda Inala – R$ 80.000 (Areia Branca – Festa de Agosto)
- 10º Gianinni Alencar – R$ 75.000 (Mossoró – Cidade Junina)
Cachês Milionários: O Desbalanceamento dos Recursos
No topo, os chamados “clube do milhão” é capitaneado por Wesley Safadão, que angariou impressionantes R$ 1,1 milhão por um único show em Mossoró e outro em Pau dos Ferros. Para se ter uma ideia do contraste, esse valor equivale a mais de 130 apresentações de artistas da cultura popular local. Os cinco maiores cachês do ano foram:
- Wesley Safadão – R$ 1,1 milhão (Mossoró e Pau dos Ferros)
- Luan Santana – R$ 985 mil (Natal e Mossoró)
- Nattan – R$ 900 mil (Mossoró)
- Durval Lelys – R$ 800 mil (Natal)
- Simone Mendes – R$ 800 mil (Mossoró)
Essa concentração de recursos faz com que aproximadamente R$ 140 milhões do orçamento público deixem o estado, enriquecendo as agências nacionais e deixando apenas migalhas para a economia local.
Gastos em Infraestrutura: Um Investimento Paralelo
Além dos cachês, as prefeituras destinaram cerca de R$ 77 milhões para infraestrutura, que inclui gastos com palcos, som, luz e segurança. Em algumas cidades como Apodi, o custo logístico chegou a ultrapassar o valor pago aos artistas, representando 53% do orçamento total da festa. Em Mossoró, por exemplo, o gasto com infraestrutura foi de R$ 8,2 milhões, consolidando-se como o maior do estado.
Desafios Legais e Públicos
Apesar da existência da Lei Estadual nº 12.069/2025, que determina que pelo menos 80% das atrações em eventos patrocinados pelo estado sejam ligadas à cultura local, a aplicação da legislação ainda é problemática. O foco da lei está mais na quantidade do que na qualidade dos recursos destinados aos artistas. O Ministério Público (MPRN) já emitiu alertas sobre a urgência de equilibrar esses gastos, especialmente em municípios que enfrentam dificuldades financeiras.
Resumo dos Investimentos em 2025
A industria das festas no Rio Grande do Norte se consolidou em 2025 como uma das principais fontes de movimentação econômica, somando um gasto total de R$ 269,3 milhões, que se divide entre:
- Cachês Artísticos (Total): R$ 192,3 milhões
- Infraestrutura e Logística: R$ 77,0 milhões
À medida que o ano de 2026 se aproxima, a grande questão que fica é: como garantir que a presença dos artistas locais nos palcos se traduza em uma valorização financeira que reflita seu imenso potencial cultural?
