Desafios à Hegemonia Americana
A recente escalada de conflitos no Oriente Médio, envolvendo EUA, Israel e Irã, trouxe à tona discussões acerca do peso que essas tensões exercem sobre a economia global. O preço do petróleo, por exemplo, teve uma alta significativa, chegando a US$ 82, antes de perder força. O economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale, fez uma análise reveladora sobre a situação dos Estados Unidos, apontando um retrocesso em diversas áreas cruciais, como educação e inovação, que ameaçam a hegemonia americana.
De acordo com Vale, a nota dos Estados Unidos no exame Pisa, que avalia a qualidade da educação, caiu de 483 para 465 desde 2003, colocando o país abaixo da média da OCDE e a 60 pontos da Coreia do Sul. Além disso, a China superou os EUA no número de patentes em 2011, e, em 2024, essa diferença aumentou para três vezes mais. O investimento em pesquisa e desenvolvimento, que já foi predominantemente estatal, agora se encontra em torno de 18%.
A infraestrutura americana também tem sido alvo de críticas, com muitos estados, especialmente no Sul, apresentando condições precárias, conforme relatório divulgado pela Consultoria Eurasia Group no início do ano. A análise de Vale destaca que o retrocesso em questões fundamentais começou nas décadas de 1970 e 1980, impulsionado pela crescente desigualdade, cortes de impostos para os mais ricos e a queda na produtividade.
— A insatisfação crescente resultou na ascensão de Donald Trump, que conseguiu capitalizar esse descontentamento — declarou Vale. Apesar da grandeza dos EUA em termos de PIB e influência global, ele ressalta que o país não possui mais uma liderança inconteste em várias áreas.
Condições de Energia e Inovação
Embora a maior parte dos investimentos em pesquisa e inovação seja oriunda do setor privado, é nas universidades que se realiza a ciência básica, uma área que Trump visou com seus cortes. Vale enfatiza que:
— A China está investindo massivamente em educação, formando um número crescente de engenheiros e se estabelecendo como a capital mundial da inovação.
Carlos Primo Braga, professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Política Econômica do Banco Mundial, possui uma visão semelhante. Ele afirma que, apesar de os EUA continuarem sendo líderes em inovação e detentores da estrutura militar mais poderosa do mundo, as decisões tomadas por Trump estão “solapando os pilares da inovação”, especialmente devido aos cortes de verbas para universidades e instituições de pesquisa.
— O impacto será sentido no crescimento em pesquisa e desenvolvimento a médio prazo. Na área de inovação, é visível a perda de posição dos EUA, basta olhar o aumento das publicações chinesas em revistas científicas e o número de patentes — alerta Braga, ao comentar sobre os sinais de desaceleração econômica que já começam a aparecer.
O Cenário Energético e as Desigualdades
O Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos, que cresceu 2,2% em 2025, mostra uma desaceleração em relação ao crescimento de 2,8% em 2024. O embaixador Rubens Ricupero, ex-secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), discorda da narrativa de perda de hegemonia, argumentando que os EUA permanecem na terceira posição no Índice Global de Inovação da Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI) desde 2000.
Diante do crescimento da China, que se destaca em tecnologias do Século XXI, como veículos elétricos, drones e inteligência artificial, o relatório da Eurasia ressalta que a base comum dessas tecnologias é a pilha elétrica. Vale destaca que:
— Quem dominar a pilha elétrica poderá construir quase tudo que a economia moderna demanda. A China a dominou, enquanto os EUA estão cedendo espaço.
No que diz respeito à geração de energia, os EUA estão enfrentando um recuo dramático. A geração elétrica no país permanece em torno de 4 mil terawatts/hora desde 2000, enquanto a da China aumentou de menos de 2 mil para mais de 10 mil terawatts/hora. Braga explica que:
— A China representa 32% da energia gerada globalmente, superando em muito a geração total dos EUA, e possui vantagens na formação de profissionais nas áreas de ciências e tecnologia, graduando quatro vezes mais engenheiros do que os EUA.
Desafios da Imigração e Intervenção Estatal
O aperto na imigração também agrava a situação, uma vez que os EUA não conseguem mais atrair talentos globais como antes, um cenário que impacta diretamente a formação nas universidades. Braga menciona que a diferença tecnológica entre os EUA e a China está diminuindo rapidamente.
Adicionalmente, a intervenção estatal nos processos econômicos está se intensificando, como aponta o recente caso da startup de inteligência artificial Anthropic, que teve acordos com o Pentágono suspensos por divergências na utilização da tecnologia. Vale observa que:
— Estamos observando um presidente que está amplificando o capitalismo de compadrio na maior economia do mundo, levando a uma fragilidade na competição.
Ricupero concorda que as intervenções são prejudiciais, mas acredita que ainda são limitadas a alguns setores. Para ele, um presidente não deve ser capaz de anular o dinamismo de uma economia aberta e pujante como a americana.
Por fim, a política de Trump também tem influenciado na desvalorização do dólar como reserva de valor, caindo de 70% na década de 1970 para menos de 60% atualmente, conforme analisa Braga. As próximas eleições legislativas serão um teste para a democracia americana, em um cenário onde Trump se torna uma figura cada vez mais polarizadora.
