Desafios do Agronegócio Potiguar
A escalada dos preços do diesel, essencial para diversas atividades do agronegócio no Rio Grande do Norte, já gera preocupação entre os produtores locais. A tensão geopolítica envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã tem influenciado diretamente o aumento dos custos, acendendo um alerta no setor produtivo potiguar, que já enfrenta um ciclo intenso de pressão sobre suas despesas.
Os reflexos da alta nos preços do diesel se espalham por toda a cadeia produtiva, impactando desde o transporte até os insumos e as exportações. Fábio Queiroga, presidente do Comitê Executivo de Fruticultura (Coex-RN), enfatiza que a alta dos preços já é sentida. “Muitos insumos utilizados na nossa produção estão ligados ao petróleo, e já notamos um aumento significativo nos custos da safra”, afirmou, ressaltando a interdependência do setor com o preço do combustível.
Além disso, Queiroga destacou a preocupação com as elevações constantes nos preços do óleo diesel. O conflito entre Irã e EUA parece criar um efeito dominó, refletindo nos aumentos das tarifas de frete rodoviário, que é o principal meio de transporte das produções até o Terminal Portuário de Natal. “Os reajustes nas tarifas devem impactar também o transporte marítimo, atingindo os destinos finais dos produtos”, afirmou.
Impacto em Todas as Etapas da Produção Rural
José Vieira, presidente da Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), também destaca que o diesel é um fator presente em praticamente todas as fases da produção rural. “Os produtores potiguares já estão sentindo os efeitos diretos da alta do diesel. Este insumo é crucial, usado desde o preparo do solo até a colheita, irrigação e transporte”, explicou.
Em regiões com forte produção irrigada, como Mossoró, Baraúna e o Vale do Açu, o impacto se torna ainda mais evidente. “O diesel representa uma parcela significativa dos custos variáveis, especialmente no acionamento de motobombas, movimentação de insumos e escoamento da produção”, afirmou Queiroga.
A pressão também se faz sentir na pecuária leiteira, especialmente nas regiões do Agreste e do Seridó. “O aumento dos custos já afeta o transporte de leite e a logística de ração e outros insumos”, acrescentou.
Avaliações e Riscos para o Futuro
Apesar do cenário desafiador, Vieira acredita que não há um risco iminente de colapso, mas enfatiza a necessidade de monitoramento. “Esse aumento, provocado pelo cenário internacional, pressiona os custos de produção e reduz as margens, especialmente em um momento em que muitos produtores já enfrentam restrições financeiras”, comentou.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também alerta para a situação. Bruno Lucchi, diretor técnico da entidade, em entrevista ao Estadão, destacou que “a preocupação primordial é com o diesel, tanto em relação aos preços quanto à normalidade do abastecimento”. Ele salientou que o setor já enfrenta desafios estruturais, como juros altos e margens apertadas, e que o conflito internacional tende a agravar ainda mais a situação dos produtores.
A alta no preço do diesel não afeta apenas as operações internas das propriedades, mas também toda a estrutura de custos do agronegócio. O aumento do frete rodoviário, que tem forte peso logístico no estado, já começa a se refletir nos custos de chegada de insumos, como fertilizantes e ração, além do escoamento da produção até os consumidores e portos.
Dependência e Incerteza no Setor
No caso dos fertilizantes, a preocupação é intensa devido à dependência externa do Brasil. O país importa uma grande parte de seus fertilizantes, e tensões geopolíticas podem elevar custos de transporte marítimo e seguros, impactando diretamente os preços internos.
O impacto da alta nos preços do diesel varia entre os diferentes tipos de produtores. Cadeias que demandam mais logística e pequenos produtores, com menos poder de negociação, são os mais vulneráveis ao aumento dos custos. Isso inclui a fruticultura de exportação, a avicultura e a pecuária leiteira.
Embora não haja, até o momento, registro de desabastecimento generalizado de insumos no estado, o cenário é de incerteza e demanda monitoramento constante. “O principal risco é o encarecimento do transporte e possíveis atrasos pontuais na entrega de insumos, especialmente aqueles que dependem de importação”, alertou Vieira.
Se a situação persistir, os produtores podem ser levados a adotar medidas de ajuste, como a redução do ritmo de investimentos, mudanças no uso de insumos e readequações na escala produtiva.
Setor Pesqueiro em Alerta
A situação não é diferente para o setor pesqueiro do Rio Grande do Norte, que enfrenta um momento ainda mais sensível. O aumento de cerca de 20% no preço do diesel tem impactos diretos nas atividades pesqueiras. Arimar França Filho, presidente do Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca-RN), ressalta que o combustível é um dos principais componentes de custo. “Os barcos dependem do óleo diesel para operar, e esse aumento já impacta a produtividade, refletindo diretamente no faturamento do setor”, disse.
Além do aumento do combustível, o setor pesqueiro também lida com crescentes tarifas de exportação para os Estados Unidos, o que amplia a pressão sobre a competitividade. Diante dessa situação, a entidade propõe medidas emergenciais, como a isenção de impostos sobre o diesel utilizado na atividade pesqueira, para mitigar os efeitos da alta.
