A Importância da Cultura na Identidade Brasileira
O Brasil se destaca como uma potência cultural, não apenas por palavras, mas por uma rica diversidade que se evidencia em várias esferas. A música brasileira, por exemplo, atravessa gerações e influencia sonoridades em todo o mundo. No setor audiovisual, as produções nacionais estão conquistando cada vez mais visibilidade em festivais internacionais e plataformas de streaming. Além disso, áreas como moda, literatura, jogos e o vibrante consumo cultural nas favelas despertam um crescente interesse global.
Contudo, o que realmente falta ao Brasil não é talento, mas sim uma estratégia que alinhe e potencialize esse talento. Enquanto outros países, como Coreia do Sul e Japão, transformaram suas culturas em projetos nacionais bem planejados, que contam com investimento contínuo e parceria entre o governo e o mercado, o Brasil ainda parece tratar sua criatividade de maneira quase espontânea, como se fosse um fenômeno acidental.
Desafios Estruturais na Economia Criativa
A situação atual revela um sério problema estrutural: a concentração e a descoordenação no setor. A economia criativa brasileira é excessivamente dependente do eixo Rio-São Paulo. Talentos emergentes das favelas e periferias ainda enfrentam dificuldades significativas em termos de financiamento. Nesse cenário, as ações do governo, das agências públicas, do setor privado e dos criadores de conteúdo muitas vezes ocorrem de forma isolada, sem a sinergia necessária. As plataformas estrangeiras, que dominam a distribuição, os dados e a monetização do conteúdo nacional, ainda controlam o jogo.
Produzimos uma quantidade significativa de conteúdo, mas temos pouco controle sobre sua circulação. A nossa cultura se espalha pelo mundo sob regras que nós mesmos não definimos, o que resulta em uma falta de soberania cultural e digital. É fundamental reconhecer que o soft power é também uma questão de infraestrutura econômica.
Iniciativas Promissoras e a Necessidade de Políticas Estruturais
Por outro lado, iniciativas inovadoras estão surgindo. Um exemplo notável é a “Rouanet das favelas”, que representa uma virada ao reconhecer regiões populares como centros legítimos de produção cultural e econômica, desafiando a tradicional centralização de recursos. Cada real investido em cultura por meio da Lei Rouanet gera impactos econômicos e sociais relevantes, estimados em R$ 7,59.
Outro marco foi a participação de empreendedores da Expo Favela no Web Summit, realizado em Lisboa, uma articulação promovida pela ApexBrasil que demonstrou que cultura, inovação e negócios podem coexistir e formar uma estratégia internacional robusta para o Brasil.
Transformando Iniciativas em Políticas Públicas
Agora, mais do que nunca, o desafio se traduz na necessidade de transformar iniciativas promissoras em políticas públicas duradouras, que possuam continuidade estratégica e uma visão de amplo alcance. A cultura deve ser encarada como política de Estado, não como mero evento ocasional.
O caminho para isso já está delineado. A criação de uma marca unificada para promover a cultura brasileira no exterior, uma estratégia abrangente para exportação cultural, o fortalecimento da Ancine além do âmbito audiovisual tradicional, e investimentos sólidos em formação técnica, distribuição e legendagem são passos cruciais.
O Potencial de Investimento e os Retornos Esperados
O investimento necessário para estruturar essa transformação não é exorbitante. Cerca de R$ 3,5 bilhões ao longo de cinco anos poderiam servir como base para um grande salto cultural. Esse montante é modesto quando comparado ao potencial retorno em exportações, criação de empregos e aumento da influência global do Brasil.
Por fim, a verdadeira questão que devemos nos fazer não é se o Brasil pode se consolidar como uma potência cultural global — isso já é uma realidade. O que precisamos discutir é por que ainda tratamos esse potencial como um mero detalhe, quando deveria ser considerado um projeto fundamental para a nação.
