Desmistificando a Crise no Agronegócio Brasileiro
Octaciano Neto, um veterano do agronegócio, compartilha suas experiências e reflexões sobre o setor que, segundo ele, não atravessa uma crise real. Nascido na Fazenda Guanabara, localizada no distrito de Cristal do Norte, Espírito Santo, Neto cresceu entre plantações e histórias familiares que remontam a 1958, quando seu avô chegou à fazenda. Desde então, ele acompanhou a evolução e os desafios enfrentados pelos produtores rurais, que frequentemente se referem ao conceito de ‘crise’.
“O produtor rural é um empresário que aprendeu a reclamar”, explica Neto. O discurso de crise parece ter se tornado parte da cultura do setor, especialmente após reformas financeiras nos anos 80 que levaram ao financiamento do agronegócio a ser predominantemente público. Ao longo do tempo, a necessidade de renegociações e prazos mais favoráveis tornou-se comum entre os produtores que desejavam ser ouvidos por Brasília.
Após a transição para o financiamento privado, onde mais de 95% dos recursos provêm do setor privado, o discurso sobre crise persiste, mesmo com os avanços significativos do agronegócio nos últimos anos. O Espírito Santo, por exemplo, abriga algumas das terras mais valorizadas do Brasil, com preços que podem alcançar R$ 150 mil por hectare. Metade dos 50 maiores produtores de café do estado, segundo Neto, têm alcançado níveis inimagináveis de liquidez.
Resultados em Números
O panorama do agronegócio brasileiro, desde os anos 90, revela um crescimento notável. A balança comercial do setor, que registrava um superávit de cerca de US$ 15 bilhões nos anos 2000, saltou para aproximadamente US$ 150 bilhões atualmente. Em 2025, as exportações do agronegócio alcançaram um recorde histórico de US$ 169 bilhões, evidenciando a força do setor nas vendas externas do Brasil.
A produção de grãos cresceu mais de 500% desde a safra de 1985/86, enquanto a área plantada dobrou, demonstrando a eficiência e a produtividade do agronegócio. O Brasil, com 851 milhões de hectares, destina apenas 31% de seu território à agropecuária, o que levanta questões sobre sustentabilidade e uso eficiente dos recursos disponíveis.
O Que Realmente Está Acontecendo?
Embora a inadimplência tenha crescido, isso não deve ser visto como um sinal de crise estrutural. Dados do Banco do Brasil indicam que a inadimplência no setor agropecuário foi de 3,94% no segundo trimestre de 2025, comparado a 5,59% para pessoas físicas. Segundo Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, “os agricultores ainda terão um ano difícil pela frente, mas a tendência é que os resultados sejam melhores do que os de 2025”.
Assim, o que se observa é um ciclo de expansão que requer um capital intensivo, um ciclo que já dura 40 anos e que trouxe muitas oportunidades, mas também desafios. O principal argumento que se escuta sobre a crise está relacionado a recuperações judiciais (RJs), que aumentaram significativamente após a atualização da Lei de Falências em 2020. Apesar do aumento que impressiona à primeira vista, representa menos de 0,3% do total de produtores.
Percepções e Projeções Futuras
A análise de Neto revela que, enquanto alguns produtores enfrentam dificuldades, a maioria do agronegócio permanece forte. “A produção nunca esteve em crise estrutural”, destaca. A gestão financeira, a agilidade em se adaptar e a resiliência são características que moldam os produtores que sairão mais fortes dessa fase.
Os juros altos têm sido um ponto crítico, e Neto sugere que, se o governo federal controlasse melhor seus gastos, a trajetória da Selic poderia ser mais favorável ao agro. Ele acredita que estamos próximos do pico da inadimplência, com uma tendência de queda em breve para muitos dos problemas atuais.
Em suma, a narrativa de crise no agronegócio pode não corresponder à realidade. O setor, que sempre foi resiliente, continua sendo um pilar fundamental da economia brasileira. O futuro do agronegócio se apresenta promissor, com muitas lições aprendidas e um caminho a ser trilhado em direção à estabilidade e ao crescimento.
