Crise e Exposição: O Impacto das Investigações na Trajetória de Allyson
Allyson Bezerra, membro do União Brasil, vive um dos momentos mais críticos de sua carreira política. Após renunciar ao cargo de prefeito de Mossoró para se lançar na disputa pelo governo do estado nas próximas eleições, ele agora se encontra no centro de diversas investigações, denúncias e acusações. Desprovido do foro privilegiado que o mandato lhe conferia, o ex-prefeito está mais vulnerável do que nunca diante das apurações da Polícia Federal.
A Operação Mederi, deflagrada pela Polícia Federal, é o principal alvo das investigações. O foco é um suposto esquema de corrupção envolvendo recursos destinados à saúde pública da região de Mossoró. A operação teve início na manhã de 27 de janeiro, quando agentes federais, acompanhados por representantes da Controladoria-Geral da União (CGU), realizaram mandados de busca e apreensão na residência de Allyson. Durante a ação, foram confiscados celulares, computadores e outros materiais essenciais à investigação.
A investigação indica que Allyson estaria no auge de uma suposta estrutura criminosa. Conversas interceptadas sugerem que ele poderia estar recebendo uma propina de até 15% sobre pagamentos feitos pela Prefeitura à DisMed Distribuidora de Medicamentos. Os valores envolvidos, conforme as investigações, podem ter sido utilizados em campanhas políticas.
A Renúncia e a Perda do Foro Privilegiado
Nos bastidores da política potiguar, a escolha de Allyson em deixar o cargo de prefeito é vista como uma manobra arriscada. Com a renúncia, ele abre mão do foro privilegiado — um mecanismo que garante que autoridades sejam julgadas em instâncias superiores.
Sem essa proteção, processos relacionados à Operação Mederi poderão ser deslocados do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), em Recife, para a Justiça Federal de primeira instância no Rio Grande do Norte. Especialistas acreditam que essa mudança pode acelerar o andamento dos processos judiciais.
Apesar do cenário complicado, Allyson mantém a firme intenção de seguir em frente com sua candidatura. Em suas redes sociais, ele anunciou que continuará como pré-candidato ao governo e programou uma série de viagens pelo estado para fortalecer sua base eleitoral.
O ex-prefeito conta com o apoio da federação União Progressistas, que agrupa os partidos União Brasil e Partido Progressista, além do Partido Social Democrático (PSD), Solidariedade e Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O vice-governador Walter Alves (MDB), que teve um rompimento político com a atual governadora Fátima Bezerra (PT), indicou o deputado estadual Hermano Morais (MDB) como candidato a vice na chapa.
Desdobramentos das Investigações: Operação Mederi
A Operação Mederi é a investigação mais significativa até agora. Iniciada em janeiro, ela investiga suspeitas de fraudes em licitações e desvio de recursos públicos na área da saúde. A operação ganhou notoriedade ao revelar indícios de irregularidades que ligam diretamente ações à Prefeitura de Mossoró.
Em uma das transcrições apresentadas em decisão judicial, dois empresários discutem o que chamam de “Matemática de Mossoró”. Nela, mencionam um suposto pagamento de propina ao então prefeito Allyson Bezerra. Um trecho do áudio capturado revela que, em um contrato de R$ 400 mil, R$ 200 mil eram entregues oficialmente e os outros R$ 200 mil não. Destes, R$ 100 mil seriam destinados a propinas, sendo R$ 60 mil para Allyson, o que corresponderia a 15% do total do contrato. O restante seria dividido entre os sócios e as empresas.
O desembargador federal Rogério Fialho Moreira, responsável pela decisão, afirmou que os diálogos revelam um esquema estruturado para o recebimento de propinas. Tanto Allyson Bezerra quanto Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, seu vice, foram identificados como protagonistas do esquema. Ambos negam as acusações.
Irregularidades em Licitações
Em 10 de março, a gestão de Allyson voltou a ser alvo de investigação, desta vez em relação a denúncias sobre contratos na área de saúde. A reclamação foi protocolada no Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN), envolvendo possíveis irregularidades no Pregão Eletrônico nº 07/2025, que buscava serviços de engenharia clínica e manutenção de equipamentos médicos.
A empresa TM Soluções Integradas EIRELI, que fez a denúncia, alega que diversas concorrentes foram desclassificadas sem justificativas que respeitassem o edital, o que teria limitado a competição.
Sucessivas Denúncias e Resposta do MP
Após a reeleição de Allyson em 2024, o Ministério Público Eleitoral iniciou uma investigação sobre suposto abuso de poder político e econômico. Embora o caso tenha sido arquivado em um primeiro momento, houve recurso, e o MPE solicitou a quebra de sigilos fiscais das agências de publicidade que trabalhavam para Allyson, além de uma perícia técnica nos conteúdos publicitários realizados.
A investigação abrange três frentes: contábil-financeira, abuso de poder político e engajamento digital, com foco no uso indevido de recursos públicos. A tramitação desse caso se dá na 33ª Zona Eleitoral de Mossoró.
Além disso, denúncias anônimas relacionadas a contratos e procedimentos na prefeitura foram investigadas pelo Ministério Público Estadual e Federal, que apura possíveis irregularidades, incluindo cobranças de propina que poderiam alcançar até 26% do valor das obras, com 4% destinados diretamente a Allyson.
Improbidade Administrativa e a Defesa de Allyson
Recentemente, o Ministério Público de Contas do Rio Grande do Norte recomendou a desaprovação das contas de 2023 da Prefeitura de Mossoró, sob a gestão de Allyson Bezerra. O parecer, que foi enviado ao Tribunal de Contas do Estado, ressalta indícios de irregularidades que poderiam configurar atos de improbidade administrativa, como falhas na execução orçamentária e inconsistências contábeis.
Allyson Bezerra, por sua vez, refuta todas as acusações e destaca que sua gestão sempre cooperou com os órgãos de controle, implementando medidas para garantir a transparência, como a criação do Sistema Hórus para o rastreamento de medicamentos, oficializado em 2023.
