O Crescimento do Etanol de Milho no Brasil
No Brasil, o milho tem se consolidado como um importante player no agronegócio, mesmo que a soja mantenha seu status de rainha. Um dos fatores que têm contribuído para esse avanço é o etanol de milho, que, ano após ano, vem se destacando no cenário econômico do país. Sua produção, que já alcançou 2,59 bilhões de litros na safra 2020/21, projeta um crescimento impressionante, podendo chegar a 10 bilhões de litros na safra 2025/26, conforme dados do Ministério de Minas e Energia.
Esse incremento é impulsionado pelo aumento no número de biorrefinarias, especialmente na região Centro-Oeste. Um exemplo claro é a nova usina da cooperativa Coamo, que será inaugurada em Campo Mourão, no Paraná. Com investimentos de R$ 1,7 bilhão, a usina deverá iniciar suas operações no segundo semestre de 2024 e se destacará por sua integração a um parque industrial que já opera com outras commodities. O presidente da Coamo, Airton Galinari, ressalta a importância da verticalização da produção: “Precisamos agregar valor à produção, e uma das maneiras é por meio da verticalização. Já fazemos isso com a soja e o trigo, e vamos fazer também com o milho”.
O Papel do Milho na Alimentação e na Produção de Etanol
O Paraná, que lidera a produção de proteína animal no Brasil — sendo o maior produtor de carne de frango e vice em carne suína — também se destaca na produção de milho, utilizado como base na alimentação desses animais. Isso torna o estado um player significativo na produção de etanol, que se torna um aliado estratégico para a cadeia produtiva. Cada tonelada de milho produz cerca de 450 litros de etanol e 300 quilos de farelo, conhecido como DDG (Grãos de Destilaria Secos), que é rico em proteína e uma alternativa mais econômica em comparação ao farelo de soja. Ao processar o milho, os produtores conseguem incrementar o valor agregado, gerando novos produtos e reduzindo custos na produção de proteína animal.
Etanol Como Alternativa Ecológica na Transição Energética
O avanço do etanol de milho se dá em um contexto em que a pressão por redução das emissões de carbono se torna cada vez mais relevante, especialmente para atender às demandas do mercado internacional. O etanol, como biocombustível, já é uma alternativa consolidada. Curiosamente, a tecnologia do motor a álcool é uma criação brasileira, desenvolvida na década de 1970 como resposta à crise do petróleo. Atualmente, o Brasil é referência mundial no uso de biocombustíveis.
Porém, o governo brasileiro encontra um dilema em sua busca por uma matriz energética sustentável. Enquanto deseja fortalecer o etanol como uma solução viável para a descarbonização, a necessidade de manter boas relações comerciais com aliados, como a China, que investe em veículos elétricos, traz desafios. O Ministério de Minas e Energia afirma que as tecnologias devem coexistir, buscando um equilíbrio entre eficiência energética, eletrificação e o uso de biocombustíveis.
Produção de Milho e Sustentabilidade
Um dos pontos críticos levantados é se o crescimento da produção de etanol de milho pode comprometer o abastecimento de alimentos. Contudo, o professor Lucílio Alves, da Universidade de São Paulo, assegura que não há motivos para preocupação. “Nas últimas seis safras, a produção doméstica cresceu 37,5% e o consumo interno, 35,1%. Isso resultou em um excedente que varia entre 34,3 milhões e 61,8 milhões de toneladas”, explica.
Adicionalmente, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) garante que a produção de etanol não interfere negativamente no abastecimento de alimentos, pois as lavouras destinadas a esse fim já fazem parte de sistemas integrados que promovem a rotação de culturas. Políticas públicas, como o Pronaf e o Pronamp, têm sido implementadas para incentivar pequenos e médios produtores a integrar-se à cadeia de produção de etanol, permitindo um desenvolvimento equilibrado no setor.
Perspectivas para o Futuro do Milho e do Etanol
Com uma oferta robusta no mercado, a expectativa é de que a inflação do milho não seja uma preocupação, ao contrário de outros alimentos da cesta básica, como ovo e café. O Mapa destaca que a indústria de etanol utiliza principalmente milho excedente da segunda safra, minimizando a competição com o abastecimento destinado à alimentação.
O professor Alves acrescenta que os coprodutos do milho, como os DDGs, ajudam a reduzir a demanda, retornando ao sistema alimentar na forma de ração animal. Além disso, a formação de preço do etanol está atrelada à paridade com a gasolina, limitando repasses diretos de custos ao consumidor. “Embora haja maior exposição a oscilações de mercado, não há evidências de que o etanol de milho possa gerar inflação persistente ou desorganizar a estrutura de preços, especialmente em um cenário agrícola diversificado”, conclui.
