Indícios de um Esquema Criminoso
No último dia 27, a Polícia Federal, em conjunto com a Controladoria-Geral da União (CGU), desmantelou um grupo criminoso que desviava recursos destinados à saúde pública de Mossoró. Segundo documentos judiciais, os integrantes da operação, conhecida como Mederi, planejavam acumular dinheiro proveniente de propinas para financiar futuras campanhas eleitorais do prefeito Allyson Bezerra (União Brasil) e do vice-prefeito Marcos Bezerra (PSD).
A revelação faz parte da decisão do desembargador federal Rogério Fialho Moreira, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), que autorizou a realização da operação. Com as eleições para o governo do Rio Grande do Norte se aproximando, Allyson Bezerra se prepara para uma possível candidatura, o que o levaria a renunciar ao cargo de prefeito até o dia 4 de abril. Nesse cenário, Marcos Bezerra assumiria a prefeitura, preparando-se para disputar a sucessão municipal em 2028.
Conversas Interceptadas Revelam Planejamento
A Polícia Federal interceptou diálogos que revelam a estratégia dos suspeitos, Moabe Soares e Oseas Monthalggan, sócios da DisMed Distribuidora. As conversas mostram sugestões de guardar o dinheiro desviado, ao invés de utilizá-lo imediatamente, para que seja utilizado posteriormente como financiamento de campanha. Um dos sócios chegou a afirmar: “Vai tirando esse dinheiro e guardando. Quando for no final, quando for pra começar tá aqui MARCOS, aqui é um extra pra você”.
O magistrado federal destacou que as conversas indicam que parte da propina (cerca de cem mil reais) seria reservada explicitamente para campanhas eleitorais. Tal ação visava “criar moral com o HOMEM”, em referência ao prefeito Allyson, para projetos políticos futuros, incluindo a corrida pelo Governo do Estado.
Implicaçõe na Saúde e na Administração Municipal
Em outros trechos das conversas, Monthalggan discute a entrega de duzentos mil reais em propina, com a distribuição de cem mil reais para a campanha. O desembargador não deixou dúvidas ao afirmar que os diálogos mostram a intenção clara de associar o pagamento de propina ao financiamento político.
Além disso, investigações apontam para a secretária municipal de Saúde, Morgana Dantas, como parte deste esquema. Ela também foi alvo da Operação Mederi. Segundo a decisão judicial, as evidências contra Morgana têm natureza indiciária e se relacionam diretamente com sua função como ordenadora de despesas do Fundo Municipal de Saúde. Durante sua gestão, a DisMed recebeu montantes crescentes, chegando a R$ 5.864 milhões em 2024.
Licitações e Supostos Irregularidades
A análise das licitações revela que a DisMed foi vencedora de contratos significativos, totalizando R$ 3.937 milhões, enquanto a Drogaria Mais Saúde conquistou lotes que somam R$ 2.163.323 milhões. A decisão judicial observou que a sistemática de entrega parcial de medicamentos e o superfaturamento mencionados nos diálogos levantam questões sobre a homologação das licitações realizadas por Morgana Dantas.
Os diálogos e a dinâmica dos esquemas revelados colocam em evidência como os envolvidos na operação planejavam seus passos com vistas ao cenário político-eleitoral. A acumulação de recursos desviados da saúde pública, segundo a Justiça, tinha o objetivo de manter o grupo no poder, possibilitando o financiamento irregular de campanhas eleitorais.
