A Esquerda em Evidência no Debate Cultural
Um ano após o sucesso global de “Ainda Estou Aqui”, o longa-metragem “O Agente Secreto” voltou a acirrar a disputa política entre o governo Lula e o bolsonarismo, especialmente com suas recentes indicações nas premiações internacionais, incluindo o Oscar. A confirmação das indicações ocorreu nesta quinta-feira e, segundo um estudo da consultoria Bites, encomendado pelo GLOBO, os dados revelam uma vitória clara da esquerda no debate digital em torno do filme. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é o autor do post mais engajado, acumulando aproximadamente 1,2 milhão de curtidas, além de ter outras três publicações entre as dez mais populares.
O filme, que conquistou quatro indicações ao Oscar 2026 – incluindo Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco – traz à tona uma análise significativa: desde o início deste ano, foram registradas cerca de 3,37 milhões de menções ao longa nas redes sociais, com cerca de 70 milhões de interações. Este cenário revela que a esquerda tem sido mais eficaz em capitalizar o sucesso do cinema nacional, especialmente quando comparada ao ano anterior, quando “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional.
A Reação da Direita e a Disputa de Narrativas
Entre as postagens que mais repercutiram do lado da direita, destaca-se a do deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de cultura do governo Bolsonaro. Em seu discurso, ele defendeu os investimentos da gestão anterior na cultura, mas sem o mesmo apelo que as mensagens da esquerda. “O bolsonarismo não conseguiu emplacar um discurso forte contra o filme. O que se observa este ano é que, ao invés de um ataque à produção, há uma tentativa de deslegitimação do ator Wagner Moura, o que não se mostrou eficaz na mobilização popular”, comenta André Eler, diretor-técnico da Bites.
O governo Lula tem demonstrado suporte à campanha do filme desde sua estreia em festivais internacionais. Recentemente, o presidente e a primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja, receberam Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho no Palácio da Alvorada, o que gerou um total de 19 postagens sobre o assunto, somando 3,4 milhões de interações. Nesse cenário, outros políticos também se manifestaram, como os ministros Fernando Haddad (PT) e Simone Tebet (MDB), e os prefeitos Eduardo Paes (PSD) e Eduardo Leite (PSD), celebrando a vitória do filme.
O Filme e Suas Críticas à Ditadura
No enredo de “O Agente Secreto”, Wagner Moura interpreta Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna ao Recife em busca de paz e conexão com seu filho. A narrativa se passa em 1977 e critica abertamente a ditadura militar. O pico de menções ao filme nas redes sociais ocorreu nos dias 11 e 12 deste mês, após a vitória na categoria internacional do Globo de Ouro e a conquista do prêmio de filme estrangeiro no “Critics Choice Awards”.
A equipe do longa também aproveitou a visibilidade para criticar o governo anterior. Durante a cerimônia do Globo de Ouro, Kleber Mendonça Filho destacou a guinada à direita que o Brasil experimentou na última década. “Fomos levados a refletir sobre os desvios da memória brasileira”, disse ele, fazendo alusão ao impacto da gestão Bolsonaro. Wagner Moura, por sua vez, ironizou o ex-presidente, afirmando que o filme só foi possível por conta das circunstâncias criadas por sua administração.
A Polarização Cultural no Cenário Político Atual
A polarização em torno de temas culturais não é uma exclusividade do Brasil. Segundo o cientista político Fábio Vasconcellos, essa tendência pode ser observada nas grandes democracias ocidentais. Ele ressalta que questões culturais têm se tornado um fator de mobilização social poderoso, interligando afetos e identidades. “O debate público eleitoral está se afastando de um modelo racional para um que prioriza posições mais radicais e emocionais”, explica.
A cientista política Carolina Botelho, do INCT/SANI/CNPq, aponta que o bolsonarismo tem se articulado contra a internacionalização do cinema nacional, utilizando as chamadas guerras culturais para sustentar sua narrativa. “Esse fenômeno, que envolve teorias conspiratórias sobre a dominação da esquerda, tem impactado negativamente o setor cultural, que enfrentou cortes de recursos e uma criminalização da classe artística durante o governo Bolsonaro”, conclui.
