Identidade e Tradições Ciganas
A definição do que significa ser cigano é complexa e varia entre as famílias. Como explica o psicólogo e professor universitário Sharlys Jardim da Silva Santos, cada grupo possui suas próprias tradições e costumes, refletindo uma identidade cultural rica e diversificada.
Recentemente, um casamento em Farroupilha reuniu aproximadamente 1,5 mil pessoas, atraindo a atenção nas redes sociais e levantando questões sobre a vida das comunidades ciganas, que geralmente se mantêm discretas quanto aos seus costumes. O evento fez com que muitos se perguntassem sobre a realidade das famílias ciganas, que, ao contrário do que muitos imaginam, não seguem um único padrão de vida.
Por exemplo, embora algumas famílias ainda mantenham arranjos matrimoniais entre primos, essa prática não é mais universal. Além disso, não é verdade que todos vivam em tendas ou se desloquem anualmente entre cidades, como era tradicional. Segundo Sharlys, a ideia de impermanência é essencial para entender a cultura cigana, uma vez que as raízes etnias – Rom e Calon – permeiam a vida de muitos.
A conexão com a cultura local é inegável, principalmente com a devoção a Nossa Senhora Aparecida, uma figura central na espiritualidade cigana. Os ofícios também desempenham um papel vital na identidade, já que muitos ciganos são comerciantes e têm uma necessidade intrínseca de interação social.
As famílias ciganas com as quais Sharlys interage atualmente têm residência fixa, mas ele mesmo vivenciou muitas mudanças ao longo da vida, sentindo quando era hora de se mover. Isso, segundo ele, é algo que parece inato entre os ciganos.
Construindo a Identidade Cigana
Sharlys, de origem Calon, com raízes em Portugal e Espanha, está atualmente defendendo sua dissertação de mestrado, na qual aborda a construção da identidade cigana. Para essa análise, ele também considera os costumes do povo Rom, representado por Vitor Caldeira, morador de Goiânia. Com um perfil popular no Instagram e TikTok, Vitor tem dedicado os últimos dois anos a compartilhar tradições ciganas com seu público, que atualmente conta com 245 mil seguidores no Instagram e 650 mil no TikTok.
Vitor menciona que existe um “radar” entre as comunidades ciganas, que permite a identificação de outros membros pelo jeito de falar e até de andar. Embora sua audiência seja composta em sua maioria por gadjés (não ciganos), ele entende a curiosidade que circula em torno da cultura cigana. O criador de conteúdo tem enfrentado desafios, incluindo comentários negativos, mas se esforça para acolher e desmistificar preconceitos, sempre respeitando a cultura que representa.
Ele destaca que eventos como o casamento em Farroupilha são momentos únicos para que as pessoas possam vivenciar as tradições ciganas de perto. Para Vitor, a abundância e a fartura demonstradas nas festas estão diretamente ligadas à sorte, refletindo a prosperidade da comunidade.
Preservando a Cultura Cigana
No bairro São Pelegrino, em Caxias do Sul, o casal Márcio Allend e Adriana Silva lidera um Centro Cultural que tem como objetivo preservar as tradições ciganas, especialmente por meio da dança e da gastronomia. Eles ressaltam que esses elementos são fundamentais para a identidade do povo cigano.
A sobrevivência da cultura cigana está intimamente ligada à formação de grupos e à união familiar, que se deslocavam conforme a necessidade. Essas comunidades muitas vezes assumiam funções que outros não queriam realizar, como cobradores de impostos e carpinteiros. Elementos simbólicos, como a fogueira e a roda da carroça, também continuam a manter vivas as identidades ancestrais desse povo.
Desde 2006, o dia do Cigano é celebrado no Brasil em 24 de maio, uma data que destaca a contribuição significativa dessa comunidade para a cultura nacional. É uma oportunidade de reconhecer e valorizar a rica herança cultural dos ciganos e seu papel na sociedade brasileira.
