Confusão em Evento Esportivo
A dentista Anna Gabriela conquistou a quinta posição na Meia Maratona de Mossoró, mas ao se preparar para receber sua premiação, foi surpreendida pela organização do evento. Em vez de um troféu pela sua colocação na categoria feminina, recebeu um prêmio de ‘honra ao mérito’.
“Tive meu direito questionado publicamente, simplesmente por ser uma mulher trans. Fui exposta e submetida a uma situação de humilhação diante de outras pessoas, tudo isso sem respaldo no regulamento da prova”, desabafou Anna.
Esse incidente, ocorrido em uma corrida amadora, acende um alerta sobre a falta de regras claras para a participação de atletas trans em competições de rua.
Diretrizes do COI e suas Implicações
A nova diretriz do Comitê Olímpico Internacional (COI), que limita a categoria feminina a atletas do sexo biológico feminino, foi estabelecida em março e terá validade a partir de Los Angeles-2028. Essa medida é apoiada por testes genéticos, mas gera preocupações quanto à sua aplicação em eventos amadores.
Antes dessa mudança, o COI deixava a definição dos critérios de elegibilidade por gênero a cargo das federações internacionais. Agora, o temor é que regras direcionadas ao esporte de alto rendimento sejam aplicadas a competições com uma lógica diferente.
A Confusão em Mossoró
No caso de Anna Gabriela, a tentativa de retirá-la do pódio não tinha respaldo no regulamento da competição, que não previa restrições relativas ao sexo biológico ou à identidade de gênero. O regulamento abordava apenas categorias gerais, como feminino, masculino e para pessoas com deficiência.
“Me inscrevi na categoria feminina porque me identifico com o gênero feminino. O regulamento não proibia a participação de pessoas trans”, esclareceu a atleta.
Ela completou a prova em 1h47min20s, ficando quase dois minutos à frente da sexta colocada. Antes da cerimônia de premiação, Anna foi informada que a organização faria uma alteração no sistema, trocando a premiação com a sexta colocada, devido a uma interpretação de que, biologicamente, não poderia competir na categoria feminina.
“Isso paralisou o meu mundo”, afirmou Anna, que apresentou documentos comprovando seu tratamento hormonal e transição de gênero. Após uma intensa discussão, a premiação referente ao quinto lugar foi finalmente mantida.
Regras em Debate
A norma 7 da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) se refere ao reconhecimento e homologação de corridas de rua, mas não define claramente a participação de atletas trans. O processo de autorização para eventos pode variar, e a Federação Norte-Rio-Grandense de Atletismo confirmou que a promotora da Meia Maratona de Mossoró não continuou o processo de autorização.
Entidades como a Abraceo, que representa organizadores de corridas, reconhecem a importância de discutir o tema. “Entendemos que essa pauta deve evoluir com a participação de entidades reguladoras e da comunidade médica”, destacou em nota.
Especialistas Alertam para Insegurança
Advogados e especialistas ressaltam a importância da previsibilidade nas regras de elegibilidade. Cristiano Caús, de CCLA Advogados, afirma que diretrizes do COI não devem ser aplicadas indiscriminadamente em todas as competições. “Essa situação gera uma insegurança jurídica muito grande”, avaliou.
Mariana Araújo, auditora no Tribunal de Justiça Paralímpico Brasileiro, complementa que aceitar a inscrição de Anna na categoria feminina configura reconhecimento de sua aptidão para competir. “O questionamento apenas na premiação contraria a boa-fé objetiva”, alertou.
Perspectivas Futuras
No Brasil, o crescimento das corridas de rua, com um aumento de 85% desde 2025, pressiona por regras claras. Wlamir Campos, presidente da CBAt, destacou que há uma expectativa de mais de 12 mil provas em 2026. Sem regras definidas, atletas trans podem enfrentar decisões aleatórias que afetam suas participações.
Além disso, a discussão sobre atletas trans ganhou espaço no Legislativo, com 57 projetos de lei criados desde 2019 para banir a participação desses atletas nas competições. Um exemplo notório foi a controvérsia envolvendo Tifanny Abreu, do Osasco, no Vôlei Feminino, onde normas municipais tentaram restringir sua participação.
Reflexões sobre Inclusão
O caso de Anna Gabriela evidencia que a questão da participação de atletas trans não é apenas uma preocupação do alto rendimento, mas uma questão que deve ser abordada em todos os níveis do esporte. Especialistas clamam pela necessidade de diretrizes claras e justas, que garantam a inclusão de todos os atletas, independentemente de sua identidade de gênero.
A premiação de Anna foi mantida, mas o impacto emocional e a humilhação vivida foram significativos. “Fui exposta a uma situação que jamais deveria ter acontecido”, concluiu.
