Um Silêncio Alarmante nas Lavouras
Nas margens das extensas lavouras de soja do Cerrado, onde o solo ainda guarda vestígios da vegetação nativa, um silêncio preocupante se instala. Os biólogos reconhecem que esse silêncio não é apenas a ausência de sons, mas a perda do característico zumbido das abelhas nativas. Essas polinizadoras, que antes se aventuravam entre os fragmentos da Mata Atlântica e os campos cultivados, estão desaparecendo sem alarde. Enquanto isso, o Brasil, em um movimento alarmante, aprovou mais de 600 novos agrotóxicos somente em 2024, um aumento de 19% em relação ao ano anterior, conforme confirmado pelo Ministério da Agricultura.
Esse cenário sombrio é reforçado por um estudo recente publicado na revista Neotropical Entomology. Pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica, da Embrapa e da Universidade de Brasília destacam que, apesar do acúmulo de conhecimento sobre polinizadores, o país carece de políticas públicas efetivas. O desafio não está na falta de ciência, mas na carência de governança robusta que integre os conhecimentos científicos em legislações efetivas.
A Importância dos Polinizadores
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Os polinizadores, que incluem abelhas, borboletas, morcegos e outros insetos, são fundamentais para a reprodução de mais de 95% das plantas cultivadas e silvestres. No Brasil, estima-se que entre 16% a 25% da produção agrícola dependa diretamente desses serviços, segundo dados do IBGE. Globalmente, cerca de 17% do valor da produção agrícola está atrelado à polinização animal, refletindo a alta demanda e a vulnerabilidade desse setor às alterações nas populações de polinizadores.
Um estudo de modelagem econômicas publicado em 2025 na Science of the Total Environment revela que a extinção global de polinizadores poderia elevar os preços de cultivos dependentes em até 30%, resultando em uma perda de bem-estar econômico de aproximadamente 729 bilhões de dólares, ou 0,9% do PIB mundial. O Brasil, apesar de sua riqueza em biodiversidade de abelhas nativas — com mais de 600 espécies de meliponíneos —, se destaca como um dos maiores consumidores de pesticidas do planeta.
Os Efeitos dos Agrotóxicos nos Polinizadores
Em 2021, o Brasil utilizou 719,5 mil toneladas de pesticidas, um volume superior ao somado pelo consumo de países como os Estados Unidos e a China. A intensidade de uso é alarmante, com cerca de 10,9 quilos por hectare, em contraste com os 2,85 kg/ha dos EUA e 1,9 kg/ha da China. Juliana Hipólito, pesquisadora do INMA e coautora do estudo, destaca que o Brasil depende dos serviços ecossistêmicos dos polinizadores, mas continua sendo um dos maiores consumidores desse tipo de produto.
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O estudo também revela que as abelhas sem ferrão enfrentam danos que vão além da mortalidade imediata. Essas criaturas, já vulneráveis pelo seu comportamento de forrageamento e exposição a ambientes contaminados, sofrem alterações subletais. Mesmo em doses consideradas seguras pela legislação, os pesticidas podem comprometer o desenvolvimento das larvas e reduzir o tamanho corporal dos insetos, prejudicando suas funções vitais de polinização e manutenção da colônia.
Desmatamento e Mudanças Climáticas: Agravantes do Problema
A perda de habitat é outro fator que intensifica essa crise. O uso excessivo de fertilizantes químicos e o desmatamento acelerado, especialmente em biomas ricos em diversidade, como o Cerrado e a Amazônia, contribuem significativamente para a diminuição das populações de polinizadores. A fragmentação de habitats resulta em isolamento das espécies, reduzindo o fluxo gênico e aumentando a vulnerabilidade a eventos climáticos extremos.
O estudo também analisa a evolução das políticas brasileiras relacionadas aos polinizadores, desde a criação da Iniciativa Brasileira de Polinizadores, ligada à Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, até o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Insetos Polinizadores. Contudo, o Brasil ainda carece de uma legislação integrada e monitoramento sistemático, limitando sua capacidade de enfrentar o problema.
Urgência de Políticas Públicas Eficazes
Pesquisadores, como Jeferson Coutinho da Embrapa, ressaltam a necessidade urgente de estabelecer políticas públicas que protejam os polinizadores e o serviço de polinização. As recomendações incluem a eliminação gradual de subsídios para agrotóxicos mais tóxicos e a criação de um programa nacional de monitoramento de populações de polinizadores. Preservar a vegetação nativa nas áreas agrícolas é essencial para garantir a saúde dos ecossistemas e, consequentemente, a produtividade agrícola.
No Brasil, cerca de 60% das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação dependem da polinização animal, demonstrando a fragilidade da cadeia que liga a natureza ao agronegócio. A ausência de uma legislação específica para proteção dos polinizadores impede avanços significativos, enquanto o país enfrenta um aumento contínuo na aprovação de agrotóxicos. Os pesquisadores alertam que a erosão dos polinizadores já está em curso, trazendo preocupações sobre o futuro da agricultura e da biodiversidade.
