Diante da Frustração Médica
Em 2022, Margie Smith enfrentou uma série de problemas de saúde, ao longo dos quais buscou a ajuda de diversos especialistas. Consultou um alergista por conta de uma tosse persistente, três pneumologistas devido à falta de ar e tosse, um otorrinolaringologista para tratar um refluxo severo, e um cardiologista após quase desmaiar durante exercícios. No entanto, Smith sentiu que a maioria dos médicos estava presa às suas especialidades, sem conseguir formar uma visão abrangente de sua condição.
“O sistema de saúde realmente falhou comigo. Dependendo de IA para obter conselhos médicos? Não sei se é a melhor opção, mas é a única que tenho disponível”, desabafa Margie.
A crescente insatisfação com o sistema de saúde motivou mais pessoas a buscarem respostas em chatbots de saúde, com um terço dos adultos relatando o uso dessas ferramentas, conforme pesquisa divulgada em março. Essa situação é particularmente relevante entre mulheres que enfrentam doenças crônicas complexas, muitas vezes mal compreendidas e que podem demorar anos para serem diagnosticadas. Isso se dá, em parte, pelo fato de que os sintomas precisam ser avaliados por múltiplas especialidades médicas e, por outro lado, pela tendência de alguns médicos em minimizar ou adiar o tratamento para os sintomas apresentados por mulheres, especialmente em condições como a Covid longa e enfermidades autoimunes.
Uso de Chatbots em Busca de Diagnósticos
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Fonte: alagoasinforma.com.br
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Fonte: belzontenews.com.br
Um número significativo de mulheres se manifestou em resposta a uma solicitação para compartilhar suas experiências com o uso de IA na área da saúde. Muitas dessas mulheres reconheceram que, embora os chatbots frequentemente forneçam informações imprecisas, ainda assim preferem essa alternativa à consulta médica tradicional, que muitas vezes não atende suas necessidades.
James Landay, codiretor do Instituto de IA Centrada no Humano da Universidade Stanford, destaca: “Existem muitos problemas associados ao uso de chatbots para aconselhamento médico. Porém, é importante entender os motivos que levam as pessoas a buscar essa alternativa.”
Historicamente, pacientes têm recorrido a fóruns, redes sociais, e ferramentas como Google e WebMD para realizar autodiagnósticos. Embora existam casos de sucesso, onde indivíduos ignorados por médicos encontraram a resposta correta após pesquisas próprias, também há relatos de pessoas que seguiram tratamentos não aprovados e enfrentaram consequências graves.
A Tecnologia como Aliada e Risco
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Fonte: ocuiaba.com.br
Usar IA para preencher lacunas deixadas pelo sistema de saúde é uma continuação de uma prática antiga. Entretanto, a natureza da tecnologia atual torna essa prática mais impactante e arriscada. Os chatbots frequentemente solicitam que os usuários detalhem seus históricos médicos e até enviem resultados de exames. As respostas fornecidas podem parecer personalizadas e confiáveis, mesmo que não sejam. Isso levanta preocupações sobre a precisão e segurança dos diagnósticos emitidos por essas ferramentas.
Embora algumas startups estejam desenvolvendo produtos de IA focados no diagnóstico de doenças, os chatbots de uso geral ainda não passaram por avaliações adequadas para diagnósticos personalizados, resultando em erros significativos, segundo Danielle Bitterman, líder clínica de ciência de dados e IA no Mass General Brigham.
Patty Costello, uma pesquisadora de Idaho, teve uma experiência positiva ao usar um chatbot. Após anos enfrentando sintomas como náuseas e fadiga, Costello descreveu sua situação ao ChatGPT, que sugeriu a síndrome de ativação de mastócitos (MCAS) como um possível diagnóstico. Após buscar confirmação com um alergista, ela recebeu o diagnóstico correto e obteve melhora significativa com tratamento.
O Papel da Alfabetização Científica
A experiência de Costello é, no entanto, a exceção e não a regra. Um estudo recente indicou que pessoas sem formação médica tiveram sucesso em diagnósticos corretos ao usar chatbots em menos da metade dos casos. Essa situação gera preocupações, visto que alguns pacientes chegam a médicos com diagnósticos errados baseados nas informações errôneas obtidas por meio de chatbots.
Caroline Gamwell, fisioterapeuta, também compartilha sua experiência de uso de IA. Com formação em anatomia, ela pôde interpretar as sugestões de diagnósticos que obteve, levando à identificação correta de um problema de saúde. Gamwell destaca que nem todos os usuários têm a mesma capacidade de discernir a validade das informações geradas por chatbots, levantando a questão da alfabetização científica no uso dessas tecnologias.
Enquanto algumas pessoas, como Deborah Holcomb e Samantha Allen Wright, utilizam chatbots para monitorar doenças crônicas, é importante ressaltar que essas ferramentas não substituem a orientação médica profissional. O alerta é claro: sempre que possível, a consulta a um médico deve ser priorizada.
