Expectativas e Desafios do Setor Agropecuário
O vice-presidente de Agronegócios e agricultura Familiar do Banco do Brasil (BBAS3), Gilson Alceu Bittencourt, manifestou sua confiança na rápida reação do agronegócio caso a taxa Selic continue em queda. Em entrevista ao Money Times durante a Agrishow, ele observou que uma redução na taxa de juros, mesmo que gradual, sinaliza um ambiente mais promissor tanto para novos investimentos quanto para a renegociação de dívidas com instituições financeiras. “Uma diminuição na Selic, ainda que lenta, pode facilitar o acesso a soluções financeiras”, afirmou.
O Banco do Brasil, que possui uma significativa carteira de R$ 406 bilhões dedicada ao agronegócio, projeta um cenário de estabilidade até 2026. Bittencourt enfatizou que manter esse volume é um grande desafio, especialmente considerando os vencimentos de dívidas que precisam ser renovadas, em um contexto de crédito mais restrito.
Desempenho na Agrishow e Oportunidades de financiamento
Leia também: Banco do Brasil Renegocia R$ 35,5 Bilhões em Dívidas Rurais diante do Aumento da Inadimplência
Leia também: Lucro do Banco do Brasil cai 45,4% em 2025, totalizando R$ 20,68 bilhões
Durante o evento, o Banco do Brasil estabeleceu uma meta de negócios de R$ 3 bilhões. “Ainda estamos no começo da feira, mas o desempenho até o momento tem sido positivo. Acreditamos que conseguiremos atingir essa meta”, comentou o vice-presidente. Para facilitar as operações, o banco ofereceu isenção na taxa operacional e linhas de crédito com juros reduzidos para a safra 2026/2027, com taxas a partir de 8% para pequenos e médios produtores, e cerca de 11% para grandes produtores.
Além disso, foram disponibilizados mais recursos equalizados para a aquisição de máquinas, resultado da redistribuição feita pelo governo ao longo do ano no âmbito do Plano Safra.
Avaliação do Setor: Sem Crise Estrutural
Bittencourt acredita que o agronegócio não enfrenta uma crise estrutural, mas sim desafios específicos, uma visão que já havia compartilhado em um evento do UBS. Ele destacou que a atual safra, em termos de área plantada, produção e produtividade, evidencia a força do setor agropecuário. Apesar de alguns desafios, ele prevê uma recuperação na adimplência, especialmente com a nova abordagem adotada pelo banco nas concessões de crédito.
Leia também: Banco do Brasil Afirma Que Agronegócio Não Vive Crise; Desafios Pontuais São Afirmados
Leia também: Banco do Brasil vê desafios pontuais no agronegócio e descarta crise
O vice-presidente ainda fez menção a algumas regiões, como o Centro-Oeste, onde os desafios são mais evidentes para certos perfis de produtores. “Os preços atuais estão em níveis históricos normais, embora tenham sido excepcionalmente altos entre 2020 e 2023. O problema enfrentado por alguns produtores é mais relacionado ao fluxo de caixa do que à falta de rentabilidade”, disse.
Orientações para Produtores Alavancados
Para os produtores que se encontram em situação financeira complicada, Bittencourt sugeriu a redistribuição das dívidas em prazos mais longos como uma das soluções. “Por meio da MP 1314, conseguimos renegociar ou contratar R$ 36,6 bilhões em dívidas, a maior parte com taxas livres, que se beneficiam da queda da Selic”, explicou. No entanto, ele ressaltou que apenas alongar as dívidas não é suficiente; é essencial que os produtores reajustem seus fluxos de caixa, revisem seus investimentos e, em algumas situações, considerem a venda de ativos.
Recuperações Judiciais e Novas Diretrizes
Com relação às recuperações judiciais, Bittencourt observou que o processo ainda está em fase de aprendizado, tanto por parte dos produtores quanto do Judiciário. Ele destacou que, embora o uso desse recurso tenha se mostrado eficaz em alguns casos, há distorções, como pedidos que visam apenas adiar dívidas. Uma nova diretriz do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) oferece mais clareza sobre o que pode ser incluído nas recuperações judiciais, contribuindo para um ambiente mais seguro. O executivo ainda mencionou que alguns produtores que utilizaram a recuperação judicial estão buscando sair do processo, pois esta alternativa não se restringe apenas à suspensão de pagamentos, mas também à necessidade de uma reestruturação efetiva de seus negócios. “Caso contrário, o risco de falência é real”, alertou.
Ele concluiu que, embora a intenção da lei seja facilitar a recuperação, em alguns casos, o produtor pode encontrar melhores condições em uma renegociação direta com seus credores. Com o tempo, a expectativa é que o número de recuperações judiciais diminua à medida que o entendimento sobre o processo se amplie.
