O Compromisso da UERN com a Educação Pública
A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) não é um presente das elites ou um favor de governos benevolentes. Sua existência é resultado direto da luta política, da mobilização popular e da ação organizada de estudantes, professores e trabalhadores que entenderam, desde o início, que a educação pública, gratuita e de qualidade é uma ferramenta essencial para a emancipação da classe trabalhadora.
Defender a UERN na atualidade é continuar uma história de enfrentamentos que busca transformar o conhecimento em um bem comum, em vez de um privilégio. A estadualização da antiga FURRN, ocorrida em 1986, é um marco dessa luta. Esse processo não foi fácil ou automático; exigiu meses de articulação política, ocupações de espaços públicos e pressão popular. Estudantes e educadores tomaram as ruas e os parlamentos, cientes de que sem essa estatalização, a universidade não sobreviveria.
Quando caravanas partiram da Praça da Catedral em Mossoró rumo a Natal, não estavam lá para solicitar favores, mas para exigir direitos. A presença ativa dos estudantes nas mobilizações foi crucial para que a proposta avançasse tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Municipal, resultando na estadualização aprovada em setembro de 1986 e dando início a um novo ciclo de disputas.
Desafios e Resistências na História da UERN
Desde então, a trajetória da UERN tem sido marcada por tentativas constantes de privatização e sucateamento. Ameaças como cortes orçamentários e atrasos salariais, assim como discursos de ineficiência, surgem como ferramentas de um projeto neoliberal que busca reduzir o papel do estado e subordinar as políticas públicas ao mercado, criminalizando, ainda, o pensamento crítico.
Em cada uma dessas tentativas, o movimento estudantil se fez presente, ocupando reitorias, pressionando governos e dialogando com a sociedade. A UERN se consolidou como uma universidade profundamente enraizada na realidade social do Rio Grande do Norte, formando profissionais que dificilmente teriam acesso ao ensino superior sem essa instituição pública.
É precisamente essa relevância que a UERN possui que gera desconforto em certos setores. Em anos eleitorais, os ataques à instituição tendem a se intensificar. Blogs associados à extrema direita, políticos conservadores e setores do bolsonarismo local passaram a enxergar a universidade como um adversário ideológico. A estratégia é clara: deslegitimar a produção científica, atacar docentes, criminalizar estudantes e preparar o terreno para um eventual desmonte institucional.
A Autonomia da UERN e os Riscos Atuais
Esses ataques colidem diretamente com as conquistas recentes da universidade, como a autonomia financeira e o fim da lista tríplice para a escolha da reitoria. Tais vitórias são frutos de décadas de luta da comunidade acadêmica e de um compromisso político firmado durante o governo de Fátima Bezerra.
Essas mudanças foram fundamentais para alterar a relação da UERN com o governo estadual, oferecendo mais estabilidade e respeito à vontade da comunidade universitária. Pela primeira vez, a universidade teve condições reais de se autogovernar sem pressões orçamentárias ou interferências políticas diretas. A conquista da autonomia financeira trouxe investimentos em infraestrutura e um fortalecimento das políticas institucionais, além de um aumento histórico nos recursos destinados à assistência estudantil.
O Papel da UERN na Interiorização do Ensino Superior
Atualmente, a UERN mantém presença em seus seis campi e 19 polos de educação a distância (EAD), desempenhando um papel vital na interiorização do ensino superior no estado. Ao longo de seus 57 anos, a universidade já conferiu mais de 60 mil diplomas, contribuindo de forma significativa para a formação acadêmica e profissional do povo potiguar.
No entanto, esse modelo está sob risco. A pré-candidatura do atual prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, ao Governo do Estado representa uma ameaça à UERN e tudo o que ela representa. Em sua gestão em Mossoró, Allyson implementou uma estratégia de endividamento acelerado e multiplicação de contratos terceirizados, resultando no esvaziamento de instâncias democráticas.
Seu histórico de centralização de poder e controle sobre processos democráticos revela uma relação problemática com a autonomia. A redução do duodécimo da Câmara Municipal e o arquivamento de projetos que garantiam eleições diretas em instituições educacionais demonstram um padrão que, se repetido em nível estadual, poderá ameaçar as conquistas da UERN.
A Luta pela Permanência Estudantil e o Futuro da UERN
O ataque à UERN não é apenas institucional, mas se manifesta de maneira concreta e cruel. No final de 2025, a demissão de cerca de 500 estagiários da prefeitura, muitos deles estudantes da UERN, deixou jovens sem suporte financeiro para transporte e alimentação, evidenciando um projeto que desprioriza a permanência estudantil.
A mobilização coletiva do movimento estudantil é essencial. Reafirmamos que a UERN não será usada como moeda de troca eleitoral ou laboratório de experiências neoliberais. A universidade transforma vidas e proporciona acesso ao conhecimento para a classe trabalhadora. Ela produz ciência comprometida com a sociedade e forma cidadãos críticos, capazes de provocar transformação social.
A história da UERN nos ensinou que nenhuma conquista foi feita sem luta, e que nenhuma será mantida sem resistência. Diante do avanço de projetos autoritários, nossa resposta deve ser organização, mobilização e luta. A UERN é do povo potiguar e, enquanto houver estudantes comprometidos, continuará a ser um bastião de resistência e democracia.
