Campanha da Fraternidade 2026 e a Crise Habitacional
Na última quarta-feira, 18 de março, o plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília, recebeu uma sessão solene em homenagem à Campanha da Fraternidade 2026, que neste ano tem como tema central “Fraternidade e Moradia”. O evento reuniu representantes da Igreja, pastorais sociais e movimentos populares, todos com o objetivo de discutir a grave crise habitacional que o Brasil enfrenta atualmente e a urgência de políticas públicas voltadas para as camadas mais vulneráveis da população.
A cerimônia teve início com a apresentação do vídeo que exibe o hino da Campanha e contou com pronunciamentos de figuras importantes, como dom José Valdeci, presidente da Comissão para a Ação Sociotransformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e o padre Jean Poul, que atua como secretário executivo de Campanhas da CNBB, além de membros de diversas pastorais e movimentos sociais voltados à moradia, população em situação de rua e migrantes.
Uma História de Compromisso Social
Em sua fala, dom José Valdeci destacou a trajetória da Campanha da Fraternidade, que começou em 1962 no Rio Grande do Norte. Inicialmente voltada para a arrecadação de fundos para ações caritativas, a campanha rapidamente se transformou em um importante agente de formação e conscientização social. Segundo ele, a Campanha acompanhou os desafios históricos enfrentados pelo Brasil e pela América Latina, sendo influenciada por marcos significativos, como o Concílio Vaticano II e as conferências de Medellín e Puebla.
Dom José ainda fez menção a contribuições de documentos importantes, como a encíclica Populorum Progressio, escrita pelo Papa Paulo VI, que destaca a necessidade de um desenvolvimento integral e justo. Com a redemocratização no Brasil, a Campanha da Fraternidade passou a tratar de temas centrais para a cidadania, contribuindo para debates que resultaram em legislações significativas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente. Finalizando sua fala, ele trouxe uma mensagem de apoio do Papa Leão XIV, que enfatiza a criação de políticas habitacionais efetivas. “Que ninguém seja privado das necessidades sagradas de todo ser humano: terra, teto e trabalho”, concluiu.
Déficit Habitacional e Desigualdade
O padre Jean Poul trouxe dados alarmantes sobre a crise habitacional no Brasil, afirmando que mais de 6 milhões de famílias não têm acesso a moradia digna, e outras 26 milhões vivem em condições inadequadas. Além disso, um levantamento recente aponta que mais de 327 mil pessoas estão em situação de rua. Ele enfatizou que a questão da habitação vai muito além da simples falta de moradias, refletindo desigualdades estruturais que permeiam a sociedade brasileira.
“Questionar a desigualdade habitacional é, na verdade, questionar a desigualdade social que aflige o Brasil”, disse ele, apontando para fatores como a concentração fundiária, a especulação imobiliária e as limitações no investimento público. O sacerdote ainda fez um chamado à mobilização de toda a sociedade, incluindo o poder público, para a criação de uma força-tarefa voltada à conquista de moradia digna, defendendo políticas como o ‘despejo zero’ e programas habitacionais mais eficazes.
Moradia: Um Direito, Não uma Mercadoria
Marcelo Guimarães, coordenador da Pastoral da Moradia e Favela, reforçou a urgência do tema, classificando como “escandaloso” o fato de que uma parcela significativa da população viva em condições indignas em um país com tantos recursos. Ele criticou a naturalização da desigualdade urbana, ressaltando a lógica que transforma a moradia em uma mercadoria. “Nosso povo foi levado a acreditar que a moradia não é um direito, mas uma responsabilidade individual”, afirmou.
Entre as propostas apresentadas durante a sessão, destacaram-se o fortalecimento de políticas públicas habitacionais, o incentivo à autogestão, a ampliação do orçamento destinado à moradia popular e a criação de mecanismos para a mediação de conflitos urbanos.
Impactos na População de Rua e Migrantes
A coordenadora da Pastoral do Povo da Rua, Ivone Perassa, abordou a relação direta entre a falta de moradia e o aumento da população em situação de rua. Segundo ela, fatores como desemprego, altos custos de aluguel e uso de substâncias estão contribuindo para o agravamento dessa questão. “Quanto menos o dinheiro for tijolo e telhado, mais pessoas encontraremos nas ruas”, alertou, pedindo um investimento maior em políticas públicas que atendam as necessidades dos mais vulneráveis.
Maria Ozania Silva, do Serviço Pastoral de Migrantes, também trouxe à tona a realidade dos migrantes e refugiados, que enfrentam ainda mais dificuldades para acessar moradia. Para ela, a falta de habitação não deve ser vista como algo inevitável, mas sim como uma consequência de decisões políticas e econômicas.
Chamado à Ação
A Campanha da Fraternidade 2026 não apenas convida à reflexão, mas também à ação concreta para enfrentar a desigualdade habitacional. Ela propõe um caminho baseado na justiça social, na solidariedade e na defesa dos direitos fundamentais. Um dos momentos mais marcantes da campanha é a Coleta Nacional da Solidariedade, que será realizada nas comunidades católicas em todo o Brasil nos dias 28 e 29 de março de 2026. Para mais informações, acesse campanhas.cnbb.org.br.
