Os Desafios das Energias Renováveis no Brasil
O Brasil, um país rico em recursos renováveis, enfrenta uma forma sutil de destruição que não envolve máquinas pesadas, mas sim um jogo complexo de emendas e pressões nos corredores do poder. Essa sabotagem silenciosa está afetando diretamente o avanço das energias renováveis, como alertou Jean Paul Prates, advogado e ex-presidente da Petrobras, em sua coluna recente.
Nos últimos tempos, três eventos importantes têm evidenciado um padrão preocupante que não pode ser ignorado por aqueles que acompanham o setor. O primeiro deles é o custo exorbitante do curtailment, que, segundo a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia (Apine), ocasionou um prejuízo de aproximadamente R$ 6 bilhões em 2025. Isso representa cerca de 20% da energia solar e eólica que poderia ter sido gerada, mas foi desperdiçada devido à falta de infraestrutura de transmissão adequada e à regulação ineficiente do armazenamento.
Em um momento crítico do terceiro trimestre de 2025, quase um terço do potencial solar disponível foi cortado, resultando na manutenção da dependência do Brasil em relação às termelétricas poluentes e caras.
Impasses Regulatórios e suas Consequências
O segundo episódio diz respeito aos entraves regulatórios no armazenamento de energia. Entre 2021 e 2025, a capacidade instalada de energias renováveis não despacháveis saltou de cerca de 30 GW para 90 GW. Apesar desse crescimento impressionante, a infraestrutura de transmissão não acompanhou a evolução, criando um cenário em que, durante os períodos de maior geração solar, o sistema não consegue consumir ou escoar toda a produção. A solução evidente, os Sistemas de Armazenamento de Energia (SAE), ainda aguardam a definição de regulação pela ANEEL.
A indefinição acerca da “dupla tarifação” — a cobrança pelo uso da rede tanto na carga quanto na injeção de energia pelas baterias — se mostra como um obstáculo significativo. Enquanto alguns defendem essa medida como uma forma de equilíbrio sistêmico, os agentes do setor acreditam que isso inviabiliza financeiramente os projetos de armazenamento, perpetuando a ineficiência.
O Naufrágio do Programa Redata
Por último, mas não menos importante, temos o programa Redata, que incentiva a instalação de data centers movidos por energias renováveis. Este projeto, que deveria representar um avanço significativo na infraestrutura energética do Brasil, se tornou um símbolo do que há de mais disfuncional no debate energético do país. Com a caducidade da Medida Provisória que o originou e a aprovação de um Projeto de Lei substituto que enguiçou no Senado, R$ 5,2 bilhões destinados a desonerar data centers renováveis permanecem sem destino.
A pressão para incluir o gás natural como fonte elegível para os incentivos do Redata ilustra bem a estratégia de setores que, ao invés de se adaptarem à nova realidade das energias renováveis, buscam garantir sua sobrevivência através de manobras legislativas. Essa mobilização, embora legítima, tem o potencial de transformar um programa que visa promover a energia limpa em mais um mecanismo de suporte ao gás fóssil.
Um Cenário de Conflito e Oportunidade
Ao observar esses três episódios isoladamente, pode-se pensar que se tratam apenas de problemas técnicos. No entanto, juntos, eles revelam uma estratégia mais ampla que visa retardar o progresso inevitável das energias renováveis. No Nordeste, onde a irradiação solar é intensamente favorável e os custos de geração são historicamente baixos, essa sabotagem tem consequências ainda mais profundas. O Brasil possui uma janela de oportunidade histórica para aproveitar o crescente interesse global por energia limpa, mas para que isso se concretize, é necessário um ambiente regulatório que não permita que interesses setoriais estrangulem o desenvolvimento do setor.
O que está em jogo não é apenas a energia limpa sendo desperdiçada, mas sim o futuro energético do país e a possibilidade de transformação do Brasil em um líder global na produção de energias renováveis. É fundamental que a sociedade e os legisladores reconheçam essas dinâmicas e atuem para garantir que a transição energética seja real, e não apenas uma fachada.
