A Polarização e a Maioria Silenciosa
No Brasil, a atual batalha de narrativas políticas tem gerado um cenário tumultuado, embora a polarização real entre os cidadãos seja consideravelmente inferior ao que transparece. De acordo com pesquisas recentes, grupos altamente engajados, como os Progressistas Militantes e os Patriotas Indignados, que representam cerca de 5% e 6% da população, respectivamente, não refletem o comportamento da maioria da sociedade.
Esses grupos, frequentemente barulhentos nas redes sociais, criam uma impressão de divisão mais acentuada do que realmente existe. Por outro lado, os 54% restantes da população, considerados a “maioria silenciosa”, tendem a adotar uma postura mais cautelosa e menos envolvida em debates acalorados. Essa constatação foi revelada em um levantamento da More in Common, em parceria com a Quaest, que foi publicado pelo UOL.
Visão dos Especialistas sobre a Polarização
Para entender essa dinâmica, o professor Pedro Dallari, especialista em Direito Internacional no Instituto de Relações Internacionais da Faculdade de Direito da USP, compartilha sua análise sobre a polarização política no Brasil.
“Na minha percepção, não há uma polarização profunda na totalidade da população brasileira”, afirma Dallari. Segundo ele, setores específicos, especialmente da elite econômica e política, tendem a acentuar suas posições e, a partir delas, tentam direcionar o debate político. Contudo, isso não reflete necessariamente um engajamento ideológico profundo por parte do povo. O professor aponta que o crescimento das redes sociais e a judicialização dos debates refletem mais a complexidade do mundo moderno do que uma polarização efetiva.
Impactos nas Instituições e na Confiança Popular
O professor José Duarte Neto, do Departamento de Direito Público da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Unesp em Franca, acrescenta que a polarização é um fenômeno mais abrangente e social. “Ela é caracterizada pela existência de posições extremas, que não toleram divergências, construídas sobre a base de uma recusa existencial do oponente”, explica.
Duarte observa que esse fenômeno não é exclusivo do Brasil e que, em grande parte, está ligado a questões sociais e culturais, além das políticas. Ele menciona que eventos como as Jornadas de Junho de 2013 intensificaram a percepção de divisão na sociedade, dificultando a construção de consensos em temas urgentes, como segurança pública.
O Papel do Direito na Manutenção da Ordem
Dallari destaca a importância do papel do Direito em assegurar a ordem social, mesmo diante de controvérsias polarizadas. “O objetivo do Direito não é evitar controvérsias, mas sim impedir que estas gerem conflitos físicos ou sociais”, observa. O professor argumenta que a polarização e a controvérsia são características intrínsecas a qualquer sociedade e que o Direito deve atuar para que essas tensões não se transformem em instabilidade social.
Desinformação e Seu Efeito nas Instituições Democráticas
Outro ponto abordado por Duarte é o impacto da desinformação no contexto democrático. “A democracia é um sistema que aceita o conflito e a diversidade de opiniões. No entanto, um dos lados, muitas vezes, utiliza táticas desleais, como a disseminação de informações falsas, para minar a confiança nas instituições”, alerta o professor.
Dallari complementa que a visibilidade dos grupos mais radicais pode não refletir sua real influência na sociedade. “Em diversas partes do mundo, os setores radicalizados têm maior destaque exatamente pela sua intensidade, mas isso não se traduz em uma representação proporcional da população”, afirma. Ele critica a ideia de que a população não está preparada para participar das decisões, ressaltando a necessidade de respeitar a capacidade do povo de decidir sobre seu futuro.
A Importância da Educação e da Cidadania
Para mitigar essa divisão, Duarte enfatiza a relevância da educação e do fortalecimento da cidadania. “Promover a tolerância, o respeito à lei e a valorização da democracia é uma tarefa que deve ser realizada diariamente. Essa é uma pauta civilizacional que nos une enquanto seres humanos”, conclui.
